sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

INSTINTOS, ARQUÉTIPOS E ALQUIMIA


O homem, instintivamente, utiliza imagens para traduzir modelos de comportamento, como o que representa o preto e o branco relacionados aos opostos imaginários.

Em O instinto e o inconsciente (1919), Jung tinha proposto um relacionamento bastante polarizado entre os arquétipos e os instintos, impulsos esses destinados a desempenhar ações originadas de uma necessidade, sem nenhuma motivação consciente. O psicanalista descrevia o arquétipo como “a percepção do instinto de si mesmo ou como o autoretrato do instinto”. A psique humana consiste de consciente/inconsciente e Freud já havia demonstrado a existência de vestígios arcaicos e modos primitivos de funcionamento na história evolucionária do ser humano pensante.

Os instintos sempre revelam um modelo de comportamento característico, que, por sua vez, realiza uma imagem qualquer. E o indivíduo, com seu escopo limitado de comportamento volitivo, funciona instintivamente, representando os modelos de comportamento que lhe aparecem como imagens. Preto e branco.

Essas duas cores são as verdadeiras cores primárias, as primeiras... Para nós, é a primazia do par preto/branco.

Quando o homem idealiza uma mulher vestida de preto imagina algo em seu corpo que ele define como sedutor e, assim, traça o seu percurso em direção à realização disfarçada de seu desejo... A emancipação da mente significa mais que obter pensamentos sedutores ou obscuros, temos que incorporar nossas percepções ignorando os desejos da alma por sombreamentos arquetípicos, que nos deixaram incrédulos, em busca de imagens metafóricas para a realização de nosso desejo.

Podemos começar a perceber, ainda que embaçadamente, por que a cor preta carrega os significados de algo condenatório, construindo um contraste oposicional ao branco, que se caracteriza como a cor da pureza.

Em meados do século XV, em nossa História, os significados do “preto” incluíam sujeira, feitiçaria, trevas, maligno, sinistro. Porém, a cor branca se equaciona à limpeza, purificação e bondade. A Psicologia alquímica oferece, exatamente, essa apreciação imaginativa. Os pacientes (e qualquer um de nós em tantos momentos) que são incapazes de imaginar estão muitas vezes enredados na nigredo por traumas passados, e aprisionados pelo físico no material. Esses mesmos pacientes, contudo, podem estar enredados, também, na nigredo de seus terapeutas. Mas, afinal, o que é a alquimia?

A alquimina é uma palavra arabizada, que trata das forças da natureza e das diversas condições em que operam. Seria o poder mágico da nossa vontade, onde, quaisquer que sejam as condições de nossa vida, o sucesso no caminho escolhido dependerá do eu houver guardado em nossos corações, lembrando que não podemos apenas ser guardadores (guarda a dor...) de emoções e sim reveladores (revelar a dor...) de opções...

Devido às suas origens, a alquimia apresentou um caráter místico, pois absorveu as ciências ocultas da Mesopotâmia, Pérsia, Egito e Síria. A arte hermética da alquimia já nasceu em lenda e mistério. Os alquimistas usavam formulas e recitações mágicas destinadas a invocar deuses e demônios favoráveis às operações químicas. Por isso, muitos eram acusados de pacto com o demônio, presos, excomungados e queimados vivos pela Inquisição da Igreja Católica.

Para Jung, o conceito de “imaginação” é, talvez, a chave mais importante para a compreensão do “opus” alquímico. Trata-se de saber que o inconsciente masculino encontra expressão como uma personalidade interior feminina: a Anima.

E, no inconsciente feminino, esse aspecto é representado como uma personalidade interna masculina: o Animus.

O inconsciente coletivo complementa o inconsciente pessoal e, muitas vezes, se manifesta igualmente na produção de sonhos. Assim, dessa foram, enquanto alguns dos sonhos têm caráter exclusivamente pessoal e podem ser explicados pela própria experiência individual, outros apresentam imagens impessoais e estranhas, que não são associáveis a conteúdos da história do indivíduo. Esses sonhos são então produtos do inconsciente coletivo, que nesse caso atua como um depósito de imagens e símbolos, que Jung denomina de arquétipos.

Assim, formamos nosso conceito das imagens e produzimos em nosso inconsciente imaginativo as nuances das cores que nos trazem prazer e/ou desprazer.

A relação entre instinto e arquétipo pode ser comparada ao espectro das cores, no qual o dinamismo do instinto ocupa o extremo (preto), e o arquétipo, o lado espiritual (branco). Devemos imaginar uma integração na esfera  consciente, que uma cor escolhida pode representar uma situação arquetípica, da qual ainda não temos conhecimento, mas que nos leva a apresentar hipóteses de estudos do comportamento humano, bem como o criminoso escolher estar trajado na cor preta ao praticar determinado tipo de crime, e que outra pessoa prefira se vestir de branco para que o outro veja como um símbolo de pureza e, assim, não causaria repulsa e poderia passar despercebido em qualquer prática ilícita.

A conversão do preto para o branco apresenta um desejo alquímico de mutação, de modo que nossa consciência possa decapitar o fundamentalismo ingênuo de suas ilusões esperançosamente multicoloridas, e que o fascínio da sedução da cor preta possa agregar a simbologia inconsciente do objeto sedutor purificado que o nosso consciente regula e nos impulsiona a utilizar, permeando situar entre o real e o simbólico um elo de prazer e sedução...

Cláudia Maria França Pádua
Psicóloga, Criminóloga, Doutora em Criminologia, Comentarista Criminal, Pesquisadora na área de Inteligência Criminal, palestrante e escritora. 

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