domingo, 3 de maio de 2015

O CONHECIMENTO E A META (defesa, desejo, roubo, transgressão, culpa, ritual, imitação, verbalização)

A defesa está encoberta por uma meta e essa meta tem uma estruturação do desejo. O desejo se move da dialética entre carência e astúcia. É acessado pela falta de algo que parece vital e para o qual há um estímulo a mover-se.

“O desejo é o que no coração mesmo de nossa subjetividade, é o mais essencial ao sujeito. Mas ele é, ao mesmo tempo, alguma coisa que é também o contrário, que aí se opõe como uma resistência, como um paradoxo, como um núcleo rejeitado, como um núcleo refutável. É a partir daí, insisto nisso várias vezes, que uma determinada experiência ética é desenvolvida.” (Lacan, 1958)

Na Grécia os homens eram bissexuais e não podiam ser homossexuais porque o desejo tinha como meta uma passagem de informação, assim como, o que vê um homem mais velho ao se apaixonar por um mais novo?  O conhecimento do mais velho é potencializado pela pobreza do conhecimento do mais novo. É um encontro erótico, pois um quer o conhecimento e o outro se sente conhecedor. Os homens não podem ter o conhecimento dos deuses, mas pode pretendê-los. É um estado inflacionário porque quer todo o conhecimento a partir do quantum que conseguiu.

Um dos elementos que compõe a estruturação do desejo com direção à uma meta é a vergonha que é induzida pela própria interioridade, pois equivale a uma admissão de fraqueza diante do desejo.

A palavra especular vem do latim que significa espelho, de se ver no outro. Na psicanálise, esse espelho (outro) recebe a projeção de nossos sentimentos e opiniões. Exemplo: O marido é responsável em frustrar a mulher que tem vergonha dele porque a vergonha é dela e ela quer alguém que lute pelos propósitos dela.

O problema do ladrão não é ter roubado, mas como parar de roubar. A vergonha é um sinal que houve uma apropriação daquilo que tinha que se apropriar (é um stop), dispondo o ego ao limite. O roubo se dá na inflação e a humilhação segura só o que precisa ser conscientizado. Enquanto isso, no caminho entre o roubo e a humilhação, há um tempo de secamento daquilo que foi roubado que é chamado de frustração para que o ego amadureça e possa, então, sustentar melhor os sacrifícios.

A transgressão no sentido de avançar os limites estabelecidos pela vergonha gera a culpa. Essa culpa indica o rompimento do indivíduo com o sistema anterior, mas tem um sintoma de limite, é saudável do ponto de vista psíquico. Se há uma culpa exagerada ela é considerada patológica. A instalação da culpa na psique do indivíduo é a tentativa dele de se emancipar do modelo, traindo-o porque tem uma ação que escapa do coletivo, sendo que quanto mais medo o indivíduo tiver, mais perto ele estará em produzir um ato com uma culpa devastadora. Esse medo sinaliza que o ato será julgado. A culpa deriva de um ato maior do que um simples erro e menor do que um pecado.

Exemplo: Um rapaz sai de casa e se sente culpado em deixar a mãe. Esse indivíduo não sente que tem direito àquele bem por causa do estado matriarcal dele. O masculino em questão, não se desenvolveu o suficiente para produzir um confronto com o Inconsciente informando que as ações estão no estado mágico da psique.

“No momento em que somos capazes de solicitar uma dimensão individual e personalizada, somos tomados por uma perturbação que tem todas as conotações do sentimento de culpa. É como se nos sentíssemos culpados por ter conseguido o que outros não conseguiram: é aquela sensação indefinida que nos acompanha na vida quando confrontamos a nossa capacidade de realização com a experiência dos que, diversamente de nós, pararam no seu caminho.” (Aldo Carotenuto)

O indivíduo recebe dos deuses um dom, mas não pode se apoderar dele porque o ego não aguenta o quantum de inflação que pode gerar e por isso, para ganhar conhecimento é preciso de fronteiras. Em crises profissionais o indivíduo se sente uma farsa que precisa da vergonha e da culpa porque está tentando se apoderar de algo. Precisa do limite. Ao falar de um projeto e deixá-lo começar a existir, a meta atrai um ritual sistemático e dinâmico.

O índio ao matar um animal, reza antes de comê-lo porque não foi ele quem o matou, mas sim os deuses que o fizeram. O índio entende que a natureza fornece o alimento, mas no ritual estamos tentando roubar algo dos deuses.

O homem antigo não fazia rituais para oferecer um bem. O bem ofertado é que produzia o ritual. A medalha de ouro já está lá, ela é o bem ofertado e cria o ritual que contém o sacrifício no seu caminho.

O bem nomeado e escolhido já é a intenção materializada, a inclusão existe antes do ritual, a meta já está estabelecida o que é um paradoxo, de um lado o inconsciente quer se conscientizar e de outro, oferece ao indivíduo aquilo que ele precisa levando o mesmo naquela direção.

A percepção de que a meta está fazendo todo o movimento na sua direção, conduz as ações para ela. Para o homem antigo isso era um fato, por isso, ele oferecia um exemplar aos deuses por não ser vulgar, como um boi albino, um grão mais desenvolvido,...

Exemplo: Os americanos dizem que ou você é ou faz por imitação (mimesis). O indivíduo, na imitação é uma farsa, uma vez que ele não se diferenciou do coletivo impedindo a originalidade que o levaria à fé. Com a filosofia acompanha-se a sabedoria, mas não a tem. É a ideia de acompanhar os deuses sem pretender sê-los, o que leva a acalmar-se.

A meta está no olhar. O filho é para os pais uma medalha de ouro. Eles depositam no filho aquilo que eles não fizeram e sabem que ele será, que é deles, dos pais. É o “vir-a-ser” dos pais. Esse filho é algo que foi feito para servir a humanidade e é por isso que é amado. A condição de amor existe na relação entre duas pessoas e quando alguém pensa em perguntar é porque o outro quer falar.

Uma mulher que apanha do marido é porque não conseguiu tirar o marido da mãe, não tem um masculino desenvolvido e o marido está preso no sistema matriarcal. O ego se confunde com o falo e não compreende o poder fertilizador. A mulher é geradora inédita porque seu produto (a criança) é inédito. Se a criança não é vista como especulativa, cai na marginalidade e se torna vulgar, é semelhante aos outros e não tem dom.

O propósito do Banquete de Platão, o próprio banquete é um roubo dos deuses, uma vez que comemoram um feito. O debate procura a sabedoria dos deuses “roubar algo dos deuses” porque o roubo é uma sinalização da incompetência dos componentes.

O amado e amante tem o “supostosaber” e isso é o que cada um busca no outro. O amante acredita que o outro sabe o que é melhor para ele e por isso o vê como amado. Pergunta-se: Porque o outro não corresponde as expectativas e se torna um agressor? Porque o amante pretende algo do amado, mas não verbaliza a ponto de receber a resposta. O que favorece a produção do enunciado? É falar sobre, porque sem verbalização não há conscientização.

Ex.: marido vê programas eróticos e a mulher fica braba.
O que cada um quer? Isso não é verbalizado e os dois se veem frustrados na relação.

A única condição de amor está na individuação e o que se tem é uma simulação, sempre tendo algo novo.


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segunda-feira, 27 de abril de 2015

AMOR E FEITOS



Este texto fala da reconstrução das bases reflexivas de um indivíduo que oferece algo. Na idade média todos os livros eram escritos sob a inspiração das musas e deuses onde o escritor falava do sentimento que o inspirava. O escritor não podia assumir que a ideia era dele porque ela partia de um deus. A lacuna era “o porquê” o escritor se sentia inspirado a falar sobre aquele assunto, por exemplo, o amor.

No Banquete de Platão, Fedro propõe discutir o amor ao invés dos feitos dos deuses já que o que buscamos são os feitos, isso nos leva a refletir sobre o que buscamos com esses feitos.

A criança quer ser alimentada de pronto, ela não pode esperar. Se ela der o que a mãe quer receberá o alimento, então, a criança precisa descobrir o que a mãe quer, sendo essa a primeira condição para conseguir o alimento. A criança como desejante, pode, por exemplo, entender que ser rebelde é a condição e assim o será.

Os feitos não são os nossos desejos e sim do outro. Ganhar medalhas, falar mais de um idioma, construir uma empresa lucrativa... são exemplos de feitos que tem uma lacuna a ser preenchida, uma necessidade de ser ovacionado pelo outro.

Se considerarmos os feitos como condição de amor, quanto mais feitos conseguir, mais longe estará do amor e então, o indivíduo se torna viciado e quanto mais viciado, mais eloquente será para ele porque o feito será maior se conseguir sair do vício. No caso de um indivíduo viciado em drogas, os pais esperam que ele vença o vício como um feito deles, dos pais. É como, na mitologia, Apolo toma o corpo de Heitor e mata os inimigos -> o “feito” é de Heitor e não de Apolo.

O ser desejante (amante) acredita que o amado detém aquilo que ele precisa para ser feliz, ele tem o que Lacan chamou de objeto a (a letra "a" em minúsculo qualifica uma alteridade, alguma coisa que está para além do sujeito desejante, que ele quer para si e que nunca é alcançado). Isso é uma ilusão. O amante acha que o outro pode dar o que ele não consegue, como a criança que quer ser alimentada. O indivíduo busca no amado aquilo que ele busca nele. O outro, como amado, é um agalomai (porta relíquias, caixa onde é colocado tudo aquilo que lhe orgulho). Esse amor se estrutura na relação entre amado e amante. Um tem os recursos e o outro acha que não os tem. Se o amado faz algo e é assim, então se o amante fizer tudo direito como o amado fez, ele terá o amor. O amado se torna para o amante aquele que tem o “Suposto Saber”.


Sócrates não entra ao chegar ao banquete, com isso as pessoas lá dentro ficam angustiadas. Sócrates é o amado, é o “SujeitoSupostoSaber”, assim como o analista que se acha sabedor quando é amado, e quanto mais amantes o analista tiver, mais ele se sente amado porque tem recursos para oferecer alimento.


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sexta-feira, 27 de março de 2015

FEMININO E MASCULINO - Duas formas clássicas de ver.

Ao longo da vida vi e convivo com mulheres e homens que reclamam sobre a incapacidade de se relacionar. Entendo que todos os incômodos são sofridos pelo Ego porque somos ignorantes do que a nossa alma quer dizer. Quando nascemos, as pessoas que nos cercam vão nos ensinando a falar a língua delas, a pensar como elas e a viver como elas. Somos alfabetizados por eles. Mas quando ganhamos um pouco de consciência vamos entendendo que não falamos a língua da alma e aí fica difícil responder as nossas mais profundas perguntas. Essa língua estranha nos fala através de situações que "cutucam" o Ego, como se fosse uma mímica e nós ficamos tentando adivinhar o que ela quer nos dizer. Entre tantos outros, temos os arquétipos da Anima (parte feminina no homem) e do Animus (parte masculina na mulher). Dois aspéctos da alma que pedem compreensão e integração.

“O que se passa com a masculinidade? Sabes quanta feminilidade falta ao homem para seu aperfeiçoamento? Sabes quanta masculinidade falta à mulher para seu aperfeiçoamento? Vós procurais o feminino na mulher e o masculino no homem. E assim há sempre apenas homens e mulheres. Mas onde estão as pessoas? Tu, homem, não deves procurar o feminino na mulher, mas, deves procurá-lo e reconhecê-lo em ti, pois tu [o] possuis desde o começo. Mas gostas de desempenhar o papel da masculinidade, porque isto flui pelo caminho desimpedido do tradicional. Tu, mulher, não deves procurar o masculino no homem, mas deves aceitar em ti o masculino, pois tu o possuis desde o começo. Mas isto te diverte e é fácil fazer o papel de mulherzinha, por isso o homem te despreza, pois ele despreza o feminino. Mas a pessoa é masculina e feminina, não é só homem ou mulher. De tua alma não sabes dizer de que gênero ela é. Mas se prestares bem atenção, verás que o homem mais masculino tem alma feminina e que a mulher mais feminina tem alma masculina.” (JUNG, 2013, p.203, Livro Vermelho)

 “A possessão pela anima ou pelo animus transforma a personalidade de modo a dar proeminência àqueles traços que são considerados psicologicamente característicos do sexo oposto. Em um ou outro caso, uma pessoa perde a individualidade, antes de tudo, e, consequentemente, tanto o encanto como os valores. Em um homem, ele fica dominado pela anima e pelo princípio de EROS com conotações de inquietação, promiscuidade, mau humor, sentimentalidade – o que quer se possa definir como uma emocionalidade irreprimida. Uma mulher sujeita à autoridade do animus e do LOGOS é controladora, obstinada, cruel, dominadora. Ambos tornam-se unilaterais. Ele é seduzido por pessoas inferiores e forma ligações pouco significativas; ela, sendo absorvida por um pensamento de segunda classe, marcha à frente sob a égide de convicções que não levam em conta os relacionamentos.”(SAMUELS, et al,p. 36)

E como diz Fabrício Moraes: "Reconhecer o Outro e integrar sua diferença em nossa realidade psíquica é uma atividade heróica".

Elizabeth Sartori
Psicanalista
Atendimento na Zona Sul e Zona Norte
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sexta-feira, 13 de março de 2015

A raiva e a gastrite e esofagite [2015]


Depois de muitos anos com problemas de gastrite e esofagite, resolvi entender melhor o porquê dessas doenças incomodas. Pensei à princípio sobre se eu tinha sentimentos de raiva e de onde eles vinham. Comecei a viajar de volta ao meu nascimento e  percebi que toda vez que enfrentava uma mudança eu tinha uma recaída. Ah! Isso fazia sentido já que quando eu me sentia confortavelmente instalada, a vida me pregava uma peça e pronto! Tinha que enfrentar novas situações. Até para nascer eu dei trabalho. Fiz minha mãe gritar a noite toda. É, eu não queria sair do seu ventre quentinho.

Pensei que pudesse haver outros elementos que eu não conhecia e então, busquei e encontrei o texto “Emoções de raiva associadas à gastrite e esofagite” e nele pude confirmar o que já havia entendido e mais um pouco. Acredito que há mais dados para amplificar esse tema, mas tudo a seu tempo porque as peças que faltam precisam ser polidas para se encaixar no lugar certo e na hora certa.

Abaixo está um texto que foi extraído do “Emoções de raiva associadas à gastrite e esofagite” de Maria Teresa Nappi Moreno e Ceres Alves Araujo [2005]. Boa leitura!

A emoção é uma reação involuntária oriunda da ativação de um complexo. Darwin [1872] percebeu que o aumento do fluxo sanguíneo na cabeça é, geralmente, um dos primeiros sinais de uma emoção.

Não só o fluxo sanguíneo como todo o sistema biológico e psíquico é envolvido na descarga de adrenalina (emoção de medo) e, noradrenalina e adrenalina (emoção da raiva). Essa descarga leva o organismo a se aproximar ou se afastar de um determinado objeto, com alterações somáticas, como p.ex. o uso e tom da voz em determinadas situações.

Um complexo é um aglomerado de associações, um conjunto coeso de sentimentos, pensamentos, percepções e memórias de carga emocional que existem no inconsciente, com caráter traumático ou doloroso e altamente acentuado. O complexo é uma imagem de uma situação psíquica que tem um tom emocional alto e que é incompatível com as atitudes habituais da consciência. É dotado de tensão ou energia própria, tendendo a formar uma pequena personalidade. Quando o indivíduo é acometido por uma doença existe aí um indício de que há um complexo autônomo que precisa ter seus conteúdos reconhecidos pelo ego.

Segundo (Jung [1942] 1982, p.15): “Um indivíduo que se encontra com este nível inferior, com suas emoções descontroladas, encontra-se incapaz de realizar um julgamento moral”.

A raiva é uma emoção primária, com conotações morais, porque é cheia de razões. Acompanhada de um impulso ataca para promover a sensação de ganhar a luta. Aquele que sente a raiva “significa que algo caiu sobre ele, que o subjugou, que o demônio está montado nele, que está possesso, ficamos fora de nós, de tanta raiva, já não somos por um demônio, por um espírito.” ( Jung ([1928] 1984, p.627)

Para Viscott (1982), raiva é o sentimento de ser irritado, ofendido, ser posto de lado, molestado, importunado, de estar enraivecido, de estar “esquentado”. Raiva e ansiedade também estão ligadas a reações de mágoa e de perda.

Quando o indivíduo está em “estado de raiva” é porque esta emoção foi segurada ou suprimida, então ela passa a ser vivenciada subjetivamente variando de intensidade de indivíduo para indivíduo, que vai desde um leve aborrecimento ou irritação até a fúria intensa ou cólera, acompanhada geralmente por excitação e tensão muscular, sendo que sua intensidade varia em função de como a injustiça ataque ou tratamento injusto pelos outros é percebida. Nesse estado, a raiva encontra-se mais direcionada para o ego, podendo resultar em culpa e depressão. Os indivíduos que fazem uso excessivo de negação e repressão, o fazem como uma forma primária de fazer oposição e evitar a raiva. São os injustiçados pelos outros, com grande número de frustrações reais ou imaginárias.

Existem dois tipos de raiva, um é a “raiva para dentro” que são os sentimentos de raiva guardados, reprimidos ou direcionados para o ego ou para o eu, resultando, às vezes, em sentimento de culpa e depressão, sendo, muitas vezes sem consciência do sentimento de raiva em si, e a “raiva para fora” que é expressa por meio de agressões físicas ou verbais e que tem uma correlação com a ansiedade.

Segundo Presa (2002), estudos mostram que indivíduos classificados em “raiva para dentro” apresentam pressão arterial sistêmica mais elevada do que os indivíduos classificados em “raiva para fora”.

No “estado de raiva” e na “raiva para dentro”, os indivíduos têm tendência a não reconhecer os sentimentos e as emoções o que resultam em reações psicossomáticas, não conseguindo nomear suas emoções, exemplos dessa patologia são encontrados nos bruxômanos que são acometidos com a ausência de palavras para nomear suas emoções, nos bulêmicos que não conseguem manter os alimentos, nas dores de cabeça, obesidade...

Os efeitos da raiva e do stress são semelhantes na redução da imunidade, com declínios dos neutrófilos, e na percepção da dor.

A raiva é importante para a psique devido à sua capacidade de impulsionar ou destruir o movimento da vida para diante. Ela tanto pode possuir o indivíduo, “cegando-o”, quanto facilitar sua “visão” com uma tomada de consciência da situação. Raiva e fúria encontram-se relacionadas por meio do processo de transformação psicológica. A fúria se mostra como uma possessão arquetípica, impedindo que o indivíduo faça uma reflexão consciente sobre seu significado. Quando o indivíduo se encontra enfurecido, é como se estivesse “a caminho da guerra”. Sempre impulsivo, é considerado portador de discórdia.

Há, em nós, uma profunda força interna que faz com que aprendamos novas habilidades, desde que a raiva não seja contida, que possa ser canalizada adequadamente.

Segundo Martin (s.d, p. 6). Hefesto “traz com a fúria suas possibilidades inventivas de fazer símbolo. Enquanto Ares inflama em atividade exterior, Hefesto queima internamente, na imaginação”.

(Alexander [1950] 1989, p.50) divide o trabalho no sistema nervoso central em:
Sistema nervoso central -> regula as relações com o mundo externo.
Sistema nervoso autônomo -> controla os processos vegetativos internos. Se diminui, a pessoa para a ação para o externo, fica dependente. Ex.: Indivíduo foge de situações de perigo por meio da diarréia, da neurose gástrica. A raiva está associada a níveis de intensidade alterados (altos e baixos) nos níveis de adrenalina, noradrenalina e cortisol e reações psicossomáticas, com sintomas típicos do sistema nervoso autônomo.

O ego não deve se identificar com um ou com outro polo e sim percebê-los simultaneamente.

A Depressão é por este símbolo de que a simbologia matriarcal é expressa. Pode ser notado por alterações da nutrição, com transtornos alimentares, de disfunções de nosso sistema digestivo e respiratório. Os sentimentos como temor, ira, raiva também podem ser expressos por meio de gastrite, refluxo, cólicas abdominais e diarréia em qualquer fase da vida.

Ramos (1994) aponta que a dificuldade de simbolizar no nível abstrato poderia ser consequência de uma interrupção pré-matura da relação mãe-bebê.

O estômago é um local de acolhimento e depósito de tudo que foi engolido. A mucosa gástrica perde sua função de fronteira interna, de barreira, na gastrite. O excesso de acidez estomacal atua como sensação de pressão e impedimento à recepção de novas impressões.

O “traço de raiva é a disposição do indivíduo para vivenciar a raiva." Segundo Spielberger (1992), estado de raiva é:
“a disposição de perceber uma gama diversa de situações como desagradáveis e frustradoras e a tendência a reagir a tais situações com elevações mais frequentes no Estado de Raiva. Os indivíduos com um Traço de Raiva muito alto experenciam o Estado de Raiva mais frequentemente e com maior intensidade do que os indivíduos com um Traço de Raiva baixo (p. 9)."

Nos indivíduos com gastrite e esofagite, assim como o alto colesterol o “traço de raiva” é acima da média. Eles não expressam sua raiva por meio de comportamentos agressivos, dirigidos a outras pessoas ou objetos. Eles são incapazes de exteriorizar seu sentimento de raiva por gestos, como bater porta, atirar coisas, ou por atos físicos diversos, como também não se dirigem às pessoas por palavrões, sarcasmo, ameaças, críticas ou insultos (raiva para fora).

Parece que as pessoas com gastrite e esofagite possuem um temperamento explosivo, são, geralmente, impulsivas, e, independente de haver ou não um fator externo que pudesse provocar a raiva, elas vivenciam fortes sentimentos de raiva, como se fossem constantemente agredidas e os homens são mais sensíveis a críticas e avaliações negativas do que as mulheres, sendo que para as mulheres a raiva não aparece clara e sim o nervosismo e a ansiedade. Para as mulheres o fato de até bem pouco tempo não ter o direito de trabalhar fora de casa, de votar, de competir, a raiva por ser geralmente acompanhada por impulsos violentos, tanto em relação aos que ofendem, quanto contra quem sente raiva, seria, então, perigoso vivenciar e expressar essa emoção.

 “Na passagem da juventude para a meia-idade, a pessoa, no processo desejável de desenvolvimento, passa a ter uma maior preocupação com seu sentido de vida, com valores espirituais, culturais, com o ser, e não dando mais tanto valor com o ter. Questiona de um modo mais profundo, sobre sua identidade. A essa fase de mudanças profundas há a possibilidade de início do processo de individuação, nos termos de Jung.”

Será que essa frustração e sentimentos de serem injustiçados a maior parte do tempo, essa autoagressão, a negação dos conflitos para não entrar em contato com seus significados não estariam relacionados ao sentido da vida e objetivos não atingidos?  Será que nessa passagem o indivíduo ao rever sua vida, levanta a hipótese, no questionamento da vida, estaria entrando em contato com sentimento de possibilidades que não se concretizam, com possíveis fracassos, e tendo dificuldade em lidar com esses aspectos, aumenta suas fantasias de serem injustiçadas frequentemente?

A dificuldade de se nutrir também está associada ao fator do indivíduo sentir, p.ex., “dor na boca do estômago”, sendo dolorosa a entrada do alimento. É como se o que viesse de fora pudesse ser visto como sendo ruim, não nutridor.

O não saber lidar com as emoções adequadamente, o engolir tudo indiscriminadamente, negando a raiva, não permitindo que a agressividade seja adequadamente exercida na elaboração simbólica, atuada de forma criativa, o não integrar o reprimido na consciência, pode estar relacionado com o surgimento de sintomas psicossomáticos, como a gastrite e com a esofagite.

“...essas ideias suspensas sobre a não entrada com as emoções subjacentes aos conflitos podem expressar-se facilmente no corpo, frequentemente como problemas de pele, de estômago e intestino, ou seja, diarréia ou constipação. As pessoas que não querem deixar algo ir embora podem produzir uma extraordinária constipação.” (Jung, [1935] 1982, par).

Aspectos simbólicos da gastrite e da esofagite são nutrir, com a figura materna, e a fase do matriarcado. Nessa fase do matriarcado há o predomínio do Eros, do afeto, do toque, da nutrição, da intimidade e da sobrevivência. Nosso corpo pode expressar o simbolismo dessa fase, do matriarcal por meio do abraçar, do acariciar e do se nutrir, assim como, se houver uma má elaboração dessa fase, nosso corpo poderá rejeitar o toque, o nutrir-se, ou alimentar-se em demasia.

Essas relações irão depender de como foram nossas relações primárias, de como foram ativados os complexos relativos a cada fase do desenvolvimento. Além disso, pode-se perceber se houve ou não fixação e estagnação nessa fase primária.

O estômago pode ser considerado como um símbolo do materno, tendo a função de receber, de acolher, de conter. Na gastrite o alimento não nutre, machuca. A auto-agressividade que aparece no excesso de ácidos, “corroendo” a mucosa gástrica, poderia estar relacionada com as dificuldades de pôr para fora aspectos agressivos, destrutivos.

A agressividade é muito importante para a nossa vida e pode ser vista como uma das funções estruturantes da personalidade. Byinton (2003) mostra que “a afetividade ensina o Ego a dizer ‘sim’, e a agressão, a dizer ‘não’ (p.82)”.

Se não houver uma elaboração simbólica, poderá haver uma fixação e estagnação de energia psíquica em um determinado complexo, impedindo sua transformação e integração, e sua constante repetição poderá levar à cronicidade, de crônico (Cronos=tempo). Será necessário resgatar os elementos simbólicos para poderem ser elaborados criativa e prospectivamente.

O ser humano parece possuir fantasias agressivas e de retaliação desde seus primeiros dias de vida, na relação mãe-bebê, na relação eu-outro, na relação eu-sociedade... Essas primeiras fantasias permeiam a vida do indivíduo em todas as suas etapas, consciente e inconscientemente. No início da vida, nós não temos problemas conscientes pessoais. Com a maior aquisição da consciência, com a dúvida, com o medo do desconhecido, começam nossos problemas, pois, quanto mais nos tornamos conscientes, mais nos afastamos da nossa natureza, dos nossos instintos e do nosso inconsciente.

No nosso amadurecer, há a necessidade de entrarmos em contato com nossos conflitos interiores, em saber integrar elementos da nossa sombra na nossa consciência, que, geralmente, é uma parte difícil, que nos faz sofrer. E, nesse momento, as pessoas tendem a fazer de conta que os conflitos não existem, negando-os, reprimindo-os. Com isso, eles retornam para o inconsciente, porém não desaparecem.

Esses conteúdos pertencentes à sombra emergem em um determinado momento, carregados de energia psíquica. Quando irrompem na nossa personalidade, é como se apossassem dela, pois neles sempre há uma relação com os complexos e as imagens arquetípicas por eles constelados. E, nesse momento, eles podem aparecer como sintomas com manifestação predominantemente psíquicas, ou predominantemente físicas.

Elizabeth Sartori - Psicanalista


REFERÊNCIAS:
Moreno, Maria Teresa Nappi e Araújo, Ceres Alves [2005]. Emoções de raiva associadas à gastrite e esofagite.
Alexander, F. (1989). Medicina psicossomática: princípios e aplicações. In. Porto Alegre: Artes Médicas. (Original de 1950).
Byington, C. A. B. (2003). A construção amorosa do saber. São Paulo: W11.
Darwin, C. (2000). A expressão das emoções no homem e nos animais. São Paulo: Companhia das Letras. (Original de 1872).
Jung, C. G. (1982). Estudos sobre psicologia analítica. (Original de 1942). In C. G. Jung (Ed.),
Obras Completas de C.G. Jung. (Vol. 7). Petrópolis.
Jung, C. G. (1984). A dinâmica do inconsciente (1928). In C. G. Jung (Ed.), Obras Completas de C.G. Jung.
(Vol. 8). Petrópolis: Vozes.
Presa, L. A. P. (2002). Mensuração de raiva em motoristas: STAXI. São Paulo: Vetor.
Martin, S. A. (s.d.). A raiva como transformação interior. São Paulo: CID.
Ramos, D. G. (1994). A psique do corpo: uma compreensão simbólica da doença. São Paulo: Summus
Spielberger, C. D. (1992). Manual de Inventário de Expressão e Raiva como Estado e Traço (STAXI).
São Paulo: Vetor.

Viscott, D. S. (1982). A linguagem dos sentimentos. São Paulo: Summus.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O MAL SE ALIMENTA DE...



Liguei a TV e fui ver o que tinha na programação daquela noite. Pára aqui, pára alí e então, vi uma cena na qual um Titã dizia que ele se alimentava do medo, o que me chamou a atenção. Não podia deixar de refletir sobre essa fala. Era inevitável.

A palavra Titã vêm do latim Titan, que por sua vez tem origem do grego Τιτάν, Ti-tan. Para James Hastings, esta palavra em etimologia popular vem de títaks, "rei" e titéne, "rainha. Esta hipótese parece mais clara e adequada às funções dos violentos titãs no mito grego, que passou a ter o sentido de "pessoa ou coisa de grande tamanho" . Seriam divindades primitivas, talvez de remota origem oriental, ligadas a ritos agrários. Sua vinculação aos elementos primários da natureza parece confirmada por uma lenda órfica posterior, que atribui aos titãs a origem da parte terrestre, ou material, dos seres humanos.

No meu entender o “indivíduo titã” não só se alimenta do medo do outro, mas de suas culpas, inferioridades, sentimentos de rejeição, vergonhas, covardia e outros sentimentos de origem primitiva.  

Se considerarmos que o Titã é “pessoa ou coisa de grande tamanho”, o “indivíduo titã”, que tem por característica principal o poder, olha o outro como ser inferior, apesar de ele ser mais frágil do que nós pressupomos, pois esconde um ponto frágil em sua personalidade que não pode aparecer.

Você consegue olhar e reconhecer seu lado Titã?
Será que você o camufla com o seu lado deus-herói?

Elizabeth Sartori
Psicanalista

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O QUE É SER MATERIALISTA?

Tive a oportunidade de refletir sobre esse tema e gostaria de compartilhar com você.

Entendo que o materialista é aquele que põe em primeiro lugar o material, os seus interesses não levam em conta o ser humano.

Ao lado de minha casa funciona uma mecânica, tudo bem até aí, mas acordar as 06h da manhã com o indivíduo acelerando um carro e esfumaçando minha casa, não dá. Antes da instalação dessa mecânica eu acordava com o canto dos pássaros, agora é com o ronco de motores e o primeiro ar que respiro é monóxido de carbono. Fazer o quê? Arrumo-me e saio.

Vou para uma empresa e chegando lá a encontro renovando a pintura de suas paredes. Primeiro passo é preciso lixar. Imagine só a quantidade de pó sendo inaladada pelos empregados daquele escritório e por mim que estava lá. Como não bastasse o pó, veio logo em seguida a pintura. Ah! A pintura... uma tinta com um cheiro insuportável, mais barata, é claro. Para que? Para embelezar paredes que haviam sido pintadas há uns meses atrás ou teria uma razão mais “nobre”?

E, então, para fechar com chave de ouro, transitando pela marginal, me vi enfurecida com o descaso que o governo tem com relação à poluição que os caminhões deixam para tráz. A maioria desses caminhões não são de São Paulo e por isso eles podem vir de suas cidades e deixar seu rastro negro. O que esses indivíduos ganham com isso? Economia? Porque a lei serve para uns e não para outros? Como é que é isto?

Sentindo raiva de tudo esse descaso que começou logo cedo, me vi incapaz de fazer algo diretamente à cada um desses indivíduos que os fizesse se conscientizar da sua autodestruição e da destruição alheia. Era como estar só enfrentando o dragão da inconsciência. Como eles podem respeitar o ser humano se eles mesmos não se respeitam?

Esses indivíduos conduzem-nos aos médicos, às farmácias, às desconfiança de suas intenções tão nobres como consertar devidamente um carro, deixar a aparência do escritório mais bonita e carregar o que preciso for pelas estradas de um destino ao outro.

Quando um indivíduo se propõe a enxergar como ser humano a si mesmo, ele certamente verá o outro também como tal.

Sabemos que o ideal para a nossa vida está em se equilibrar e que sempre teremos em nossa vida a luta entre os opostos, tais como: bom-ruim, ganância-generosidade, consciência-inconsciência, materialista-altruista. Não quero dizer com esse desabafo que o material em si é ruim porque senão seríamos eremitas no deserto. O que prejudica e impede a evolução é a unilateralidade desses indivíduos, uma vez que seus propósitos vão de encontro ao que há de ruim neles, poder e ganância de ordem financeira, status, ignorância ou outra qualquer.

Elizabeth Sartori
Psicanalista

domingo, 28 de julho de 2013

EMANCIPAÇÃO - RESULTADO DE UMA LIBERTAÇÃO

Em psicanálise, um dos entendimentos por parte do analisando é a luta contra o que representa a mãe e depois o pai. A partir do momento do nascimento o indivíduo, até mais ou menos 07 anos, passa a receber as orientações da mãe do que pode ou não pode ser, ter e fazer. Em seguida, vem as críticas dele em relação ao que está recebendo dessa mãe e ele vai ao encontro do pai, que por ter seus medos e inseguranças, passa a fazer o mesmo que a mãe. E assim, esse indivíduo que ainda não o é chega ao status de adulto.

Quando adulto, mesmo não convivendo mais com os seus pais, ainda vê a mesmas orientações através de outras pessoas sobre as quais ele projeta a autoridade deles. Como exemplo, temos a interferência no que ele deve ou não cursar na faculdade, trabalhar ou não em uma empresa, comprar algo, namorar ou casar com alguém, educar os filhos e outras.

Normal  !?!  Normal, até certo ponto, já que a criança ainda não tem condições para decisões.  Ela está em formação de sua personalidade. Porém, existem casos de crianças que não tiveram essas orientações, enquanto pequenas, o que resulta daí, adolescentes e adultos que vemos por aí cometendo atrocidades.

A emancipação do adulto está em tomar suas próprias decisões e arcar com as consequências boas e más. Só, então, esse indivíduo poderá experenciar, aprender e apreender sobre sua disponibilidade para a Vida. Viver as experiências de outros e, portanto, protegido não leva o indivíduo ao autoconhecimento, muito pelo contrário, ele vive uma vida sem sentido, cercado de inseguranças e insatisfeito. Ele vive numa prisão sem
saber.

Elizabeth Sartori
Psicanalista

Atendimento na Zona Norte