quarta-feira, 14 de março de 2012

(O HOMEM E O SI-MESMO) 7º SERMÃO AOS MORTOS

Mas quando sobreveio a noite, os mortos avançaram de novo, com lamentável aspecto, e disseram: Tem mais uma coisa que esquecemos de mencionar. Ensina-nos sobre o homem.

O homem é pórtico, pelo qual, vindos do mundo exterior de deuses, demônios e almas, passais para o mundo interior; saindo do mais vasto para penetrar no mais ínfimo. Pequeno e efêmero é o homem. Já se encontra atrás de vós e mais uma vez vos achais no espaço sem fim, no menor ou mais íntimo infinito. A incalculável distância paira uma estrela solitária no zênite.

Esse é o único deus desse homem. Esse o seu mundo, seu pleroma, sua divindade.

Nesse mundo é homem Abraxas, o criador e destruidor de seu próprio mundo.

Essa estrela é o deus e o destino do homem.

Esse o único deus que o guia. Nele vai o homem repousar. Rumo a ele segue a longa jornada da alma depois da morte. Nele brilha como luz tudo o que o homem traz de volta do mundo mais vasto. A esse único deus o homem erguerá suas preces.

A prece intensifica a luz da estrela. Lança uma ponte sobre a morte. Prepara a vida para o mundo mais ínfimo e aplaca os desejos irrealizáveis do mais vasto.

Quando o mais vasto esfria, a Estrela arde.

Entre o homem e o seu deus único nada se interpõe, desde que se possa desviar os olhos do espetáculo flamejante de Abraxas.

O homem aqui, deus lá.

A fraqueza e o nada aqui, lá o poder eternamente criador.

Aqui, nada além de trevas e gélida umidade.

Lá completamente sol.

Então os mortos se calaram e subiram como fumaça de fogueira de pastor que passou a noite zelando pelo rebanho.

ANAGRAMA:
NAHTRIHECCUNDE
GAHINNEVERAHTUNIN
ZEHGESSURKLACH
ZUNNUS

(SERPENTE E PÁSSARO BRANCO) 6º SERMÃO AOS MORTOS

O demônio da sexualidade se aproxima de nossa alma feito serpente. Semi-humano, surge como pensamento-desejo.

O da espiritualidade mergulha sobre nossa alma como pássaro branco. Semi-humano, surge como desejo-pensamento.

A serpente é uma alma terrena, semidemoníaca, um espírito, e semelhante ao espírito dos mortos. Assim, como estes, também pulula entre as coisas da Terra, fazendo-nos temê-las ou espicaçando-nos com desejos imoderados. A serpente tem natureza semelhante à da mulher. Sempre procura a companhia dos mortos retidos pelo feitiço da Terra, os que não encontraram o caminho mais além, que leva ao isolamento. A serpente é meretriz. Entrega-se a orgias com o Diabo e com os maus espíritos; tirania e algos maldosa, sempre seduz os mais vis. O pássaro branco é uma alma semiceleste do homem. Dialoga com a Mãe, descendo de quando em quando. O pássaro tem natureza semelhante à do homem, e é pensamento efetivo. Casto e solitário, é mensageiro da Mãe. Sobrevoa a Terra a grande altitude. Infunde isolamento. Dá ciência dos distantes que já se foram e estão consumados. Leva nossa palavra à Mãe nas alturas. Ela intercede, avisa, mas não dispõe de poder contra os deuses. É receptáculo do Sol. A serpente vai para baixo e, com sua astúcia, estropia o demônio fálico ou então incita-o a prosseguir. Produz os pensamentos demasiado ardilosos do demônio terrestre, aqueles pensamentos que se insinuam com desejo por cada furo e fenda em todas as coisas. A serpente, sem dúvida, não quer, mas tem que ser útil a nós. Foge do nosso alcance, mostrando-nos assim o caminho, que com nossa inteligência humana não poderíamos encontrar.

Com olhar desdenhoso, disseram os mortos. Pára de falar em deuses, demônios e almas. No fundo, há muito já sabíamos disso.

(ESPIRITUALIDADE E SEXUALIDADE) 5º SERMÃO AOS MORTOS

Os mortos escarneceram e vociferaram: Ensina-nos, tolo, a respeito da igreja e da santa comunhão.

O mundo dos deuses se torna manifesto na espiritualidade e na sexualidade. Os celestes aparecem na espiritualidade, os terrestres na sexualidade.
A espiritualidade concebe e acalenta. É feminina e por isso a chamamos de MATER COELESTIS, a mãe celeste. A sexualidade gera e cria. Masculina, a chamamos de PHALLOS, o pai terrestre.
A sexualidade do homem é mais da terra; a da mulher, mais espiritual.
A epiritualidade do homem é mais do céu, vai para o mais vasto.
A da mulher, mais da terra, vai para o mais ínfimo.
Mendaz e diabólica é a espiritualidade do homem que vai para o mais ínfimo.
Mendaz e diabólica é a espiritualidade da mulher que vai para o mais vasto.
Cada uma deve ir para seu próprio lugar.
O homem e a mulher, quando não dividem seus caminhos espirituais, tornam-se diabos um para o outro, pois a natureza da criatura é a individualidade.
A sexualidade do homem tem curso terreno; a da mulher, espiritual. O homem e a mulher, quando não dstinguem sua sexualidade, tornam-se diabos um para o outro.
O homem conhecerá o menor, a mulher o maior.
O homem se distinguirá da espiritualidade e da sexualidade. Chamará à espiritualidade Mãe, colocando-o entre si mesmo e a terra. Pois Mãe e Phallos são demônios super-humanos que revelam o mundo dos deuses. São para nós mais efetivos que os deuses, por terem maior afinidade com a nossa própria natureza. Se não vos distinguirdes da sexualidade e da espiritualidade e não as considerardes de uma natureza além e acima de vós, então vos entregareis a elas como qualidades do pleroma. A espiritualidade e a sexualidade não são qualidades vossas, nem coisas que possuís e contendes, mas que vos possuem e contêm; pois são demônios poderosos, manifestações dos deuses e, por conseguinte, coisas que vos ultrapassam, existentes em si mesmas. Nenhum homem tem espiritualidade ou sexualidade próprias. Mas coloca-se sob a lei da espiritualidade e da sexualidade.
Nenhum homem, pois escapa desses demônios. Deveis considerá-los como demônios que têm uma tarefa e um risco comuns, carga comum que a vida vos legou. Assim a vida, para vós, também é tarefa e riscos comuns, como são os deuses, e, acima de tudo, o terrível Abraxas.
O homem é fraco, portanto a comunhão é indispensável. Se vossa comunhão não estiver sob o signo da Mãe, então está sob o signo de Phallos. Nenhuma comunhão é sofrimento e doença. A comunhão em tudo é desmembramento e dissolução.
A individualidade leva ao isolamento. O isolamento se opõe à comunhão. Mas por causa da fraqueza do homem contra os deuses e os demõnios e sua lei invencível, a comunhão é necessária. Portanto deve haver tanta comunhão quanto for preciso, não por causa do homem, mas por causa dos deuses. Os deuses vos forçam à comunhão. Quanto mais vos forçarem, maior será a necessidade de comunhão, maior o mal.
Na comunhão, que cada homem se submeta aos demais, para que seja mantida; pois precisais dela.
No isolamento, um homem será superior aos demais, para que todos possam vir a ele e evitar a escravidão.
Na comunhão haverá continência.
No isolamento, prodigalidade.
Comunhão é profundeza.
Isolamento é elevação.
A medida certa na comunhão purifica e preserva.
No isolamento, purifica e aumenta.
A comunhão nos dá calor, o isolamento luz.

terça-feira, 13 de março de 2012

(DOIS DIABOS, O ARDENTE E O CRESCENTE) 4º SERMÃO AOS MORTOS

Os mortos encheram de murmúros o recinto e disseram:
Fala-nos dos deuses e dos diabos, maldito!

O Deus-Sol é o bem supremo; o Diabo, o oposto. Assim, tendes dois deuses. Mas há dois deuses-diabos; um, o ARDENTE, o outro, o CRESCENTE.
O ardente é EROS, que tem forma de chama. A chama dá luz porque se consome.
O crescente é a ÁRVORE DA VIDA. Germina e ao crescer se acumula de coisas vivas.
Eros se inflama e morre. Mas a árvore da vida cresce lenta e constantemente, por tempo incomensurável.
O Bem e Mal estão unidos na chama.
O Bem e o Mal estão unidos no crescimento da árvore. Em suas divindades, a vida e o amor se opõem.
Inumerável como a hoste de estrelas é o número de deuses e diabos.
Cada estrela é um deus e cada espaço que ocupa, um diabo. Mas a plenitude-vácuo do todo é o pleroma.
A manifestação do todo é Abraxas, a quem só o inefetivo se opõe.
Quatro é o número das medidas do mundo.
O primeiro é o começo, o Deus-Sol.
O segundo, Eros, une os extremos e se expande em luz.
O terceiro, a Árvore da Vida, ocupa o espaço com formas corpóreas.
O quarto é o Diabo, que abre tudo o que se encontra fechado; desfaz tudo o que se constitui de natureza corpórea; é o destruidor em que tudo é reduzido a nada.
Para mim, a quem foi dado o conhecimento da multiplicidade e diversidade dos deuses, está bem. Mas ai de vós, que substituís esses múltiplos incompatíveis por um deus único. Pois, assim fazendo, gerais o tormento que se origina na falta de compreensão e mutilais a criatura cuja natureza se vos esforçais para transformar o múltiplo em uno? O que fizerdes com os deuses será feito convosco. Ficais todos iguais e assim frustrais vossa natureza.
A igualdade prevalecerá, não para Deus, mas apenas em benefício do homem. Pois muitos são os deuses, ao passo que poucos os homens. Os deuses são poderosos e podem arcar com a sua multiplicidade. Pois, como as estrelas, permanecem solitárias, separados por distâncias imensas. Mas os homens são fracos e não podem arcar com sua natureza múltipla. Por isso moram juntos e precisam de comunhão para poder suportar o isolamento. Por amor a redenção, ensino-vos a verdade rejeitada, por cujo amor sofri rejeição.
A multiplicidade dos deuses corresponde à multiplicidade do homem.
Inúmeros deuses guardam a condição humana. Inúmeros foram homens. O homem partilha da natureza dos deuses. Vem dos deuses e vai para deus.
Assim como de nada serve refletir sobre o pleroma, não adianta venerar a multiplicidade dos deuses. E menos ainda venerar o primeiro deus, a abundância efetiva e o summum bonum. Nada podemos acrescentar-lhe com nossa oração, e dele nada podemos tirar; porque o vácuo efetivo tudo absorve.
Os deuses brilhantes formam o mundo celeste, que é múltiplo, e infinitivamente disperso e crescente. O Deus-Sol é o senhor supremo deste mundo.
Os deuses escuros formam o mundo terrestre. São simples, e infinitivamente decrescentes e minguantes. O Diabo é o mais abjeto senhor desse mundo, o espírito-lunar, satélite terrestre, menor, mais frio e mais morto que a terra.
Não há diferença entre o poder dos deuses celestes e o dos terrestres. Os celestes aumentam, os terrestres diminuem. Incomensurável é o movimento de ambos.

(BEM E O MAL) 3º SERMÃO AOS MORTOS

Como a neblina que se ergue de um pântano, os mortos avançaram clamando: Explica melhor esse deus supremo.

É difícil definir a divindade de Abraxas. Seu poder é o maior porque o homem não o percebe. Do Sol, retira o summum bonum;do Diabo, o infimum malum;mas, de Abraxas, a VIDA, totalmente indefinida, a mãe do Bem e do Mal.
A vida parece ser menor e mais frágil que o summum bonum; por isso é também difícil conceber que Abraxas transcenda em poder até o Sol, que é a fonte radiosa de toda a força da vida.
Abraxas é o Sol e ao mesmo tempo a garganta eternamente voraz do vácuo, o Diabo menosprezador e mutilante.
O poder de Abraxas é duplo; mas não o vedes, porque para vossos olhos os antônimos incompatíveis se anulam.
O que o Deus-Sol fala é vida.
O que o Diabo fala é morte.
Mas Abraxas fala aquela palavra sagrada e maldita que é vida e morte ao mesmo tempo.
Abraxas gera a verdade e a mentira, o Bem e o Mal, a luz e as trevas, na mesma palavra e no mesmo ato. Por isso é Abraxas terrível.
É magnifíco como o leão no momento em que ataca a vítima. Bonito como um dia de primavera. É o próprio grande Pã e também o pequeno. É Príapo.
É o monstro das profundezas, pólipo de mil tentáculos, nó emaranhado de serpentes aladas, frenesi.
É o hermafrodita dos tempos imemoriais.
É o senhor dos sapos e rãs, que vivem na água e sobem à terra, cujo soro se eleva à tarde e à meia-noite.
É a abundância que busca a união com o vácuo.
É a sagrada procriação.
É o amor e o assassino do amor.
É o santo e seu traidor.
É a mais brilhante luz do dia e a mais negra noite de loucura.
Contemplá-los é cegueira.
Conhecê-lo, doença.
Venerá-lo, morte.
Temê-lo, sabedoria.
Não resistir a ele, redenção.
Deus mora atrás do Sol, o Diabo atrás da noite. O que Deus traz à luz, o Diabo lança às trevas. Mas Abraxas é o mundo, seu provir e seu passar. Sobre cada presente que vem do Deus-Sol, o Diabo roga sua praga.
Tudo o que implorardes ao Deus-Sol provoca uma ação do Diabo.
Tudo o que criardes com o Deus-Sol, dá poder efetivo ao Diabo.
Esse é o terrível Abraxas.
É a criatura mais potente, e nele a criatura tem medo de si mesma.
É a oposição manifesta da criatura ao pleroma e seu nada.
É o horror que o filho sente da mãe.
É o amor da mãe pelo filho.
É a alegria da Terra e a crueldade dos céus.
Diante de seu semblante o homem fica que nem pedra.
Diante dele não há perguntas nem respostas.
É a vida da criatura.
É a manifestação da individualidade.
É o amor do homem.
É a linguagem do homem.
É a aparição e a sombra do homem.
É a realidade ilusória.

Então os mortos, por estarem consumados, gemeram e esbravejaram.

(DEUS E O DIABO) 2º SERMÃO AOS MORTOS

No meio da noite os mortos, parados em pé contra a parede, bradaram:

Queremos ver Deus. Onde está? Morreu?

Deus não morreu. Agora, como sempre, vive. Deus é criatura, coisa definida e, portanto, distinta do pleroma. Deus é qualidade do pleroma e tudo o que eu disse da criatura também se aplica a ele.

Distingue-se, porém, dos seres criados no sentido de que é mais indefinido e indeterminável do que eles. É menos diferenciável que os seres criados, pois a base de sua existência é a plenitude efetiva. Só na medida em que for definido e distinto é criatura e na mesma proporção é manifestação da plenitude do pleroma.

Tudo o que não distinguimos mergulha no pleroma e se anula pela antinomia. Se, portanto, não distinguimos Deus, a plenitude efetiva se extingue para nós.

Além disso, Deus é o próprio pleroma, da mesma maneira que cada ponto ínfimo no criado e no incriado é o próprio pleroma.

O vácuo efetivo é a natureza do Diabo. Deus e o Diabo são as primeiras manifestações do nada, que chamamos de pleroma. É indiferente que o pleroma exista ou não, uma vez que em tudo é contrabalançado e nulo. A criatura já não é assim. Na medida em que Deus e o Diabo são criaturas, não se anulam e sim erguem-se um contra o outro, como antônimos efetivos. Não precisamos de provas de sua existência. Basta que sempre se esteja falando neles. Ainda que ambos não existissem, a criatura, por causa de sua individualidade essencial, sempre os distinguiria de novo no pleroma.

Tudo o que a discriminação distingue no pleroma é antinomia. Deus, portanto, sempre corresponde ao Diabo.

Essa inseparabilidade é tão íntima e, como a vossa própria vida vos fez ver, tão indissolúvel quanto o próprio pleroma. Assim é que os dois se mantêm muito próximos do pleroma, no qual todos os antônimos se anulam e se fundem.

Deus e o Diabo se distinguem pelas qualidades de plenitude e vácuo, criação e destruição. A EFETIVIDADE é comum a ambos. A efetividade os une. Paira, portanto, sobre ambos, é um deus acima de Deus, já que em seu efeito reúne a plenitude e o vácuo.

Esse é um deus que não conheceis, pois a humanidade o esqueceu. Nós o chamamos pelo seu nome, ABRAXAS. É ainda mais indefinível que Deus e o Diabo.

O deus que se pode distinguir, nós o chamamos de deus HELIOS, ou Sol. Abraxas é efeito. Nada se antepõe a ele que não seja inefetivo, daí que a sua natureza efetiva se desdobre livremente. O inefetivo não existe, portanto não resiste. Abraxas paira acima do Sol e acima do Diabo. É a probabilidade improvável, a realidade irreal. Tivesse o pleroma um ser, Abraxas seria a sua manifestação. É o próprio efetivo, não algum efeito especial, mas o efeito em geral.

É a realidade irreal porque não tem efeito definido.

É também criatura, por ser diferente do pleroma.

O Sol tem um efeito definido e o mesmo acontece com o Diabo. Por isso nos parecem mais efetivos que o indefinido Abraxas.

É força, duração, mudança.

Os mortos então provocaram grande tumulto, pois eram cristãos.

domingo, 11 de março de 2012

(NADA, PLENITUDE, VÁCUO) 1º SERMÃO AOS MORTOS

Os mortos voltaram de Jerusalém, onde não encontraram o que procuravam. Pediram-me guarida e imploraram que lhes falasse. Assim comecei a ensinar.

Prestai atenção: começo pelo nada. O nada equivale à plenitude. No infinito, o pleno não é melhor que o vácuo. O nada é, ao mesmo tempo, vácuo e plenitude. Dele se pode dizer tudo o que se quiser; por exemplo: que é branco, ou preto, ou então que existe, ou não. Uma coisa infinita e eterna não possui qualidades, pois tem todas as qualidades.

A esse nada ou plenitude dá-se o nome de PLEROMA. Nesse particular cessam o pensar e o ser, já que o eterno e infinto não possui qualidades. Nele nenhum ser é, porque senão se diferenciaria do pleroma e possuiria qualidades que o distinguiriam como algo inconfundível.

No pleroma não existe nada e tudo existe. É absolutamente inútil pensar no pleroma, pois redundaria em autodissolução.

A CRIATURA não está no pleroma, mas em si mesma. O pleroma é, simultaneamente, o começo e o fim dos seres criados. Impregna-os, como a luz impregna o ar em todo lugar. Apesar de impregnado por completo, nenhum ser criado retém parte do pleroma, assim como o corpo inteiramente translúcido não se torna claro nem escuro com a luz que o impregna. Somos, porém, o próprio pleroma, pois integramos o eterno infinito. Mas não retemos nenhuma parte sua, por estarmos infinitamente afastados, não em forma espiritual ou temporal, e sim essencial, pois nos diferenciamos dele por nossa essência de criatura, confinada no tempo e no espaço.

No entanto, por dele fazermos parte, o pleroma também está em nós. Até mesmo no seu grau mais ínfimo não tem fim, é eterno, e inteiro, pois pequeno e grande são qualidades nele contidas. É aquele nada que se acha completo e contínuo em todo lugar. Só no sentido figurado, portanto, me refiro ao ser criado como parte do pleroma. Porque, na realidade, o pleroma não se divide em nenhum lugar, uma vez que equivale ao nada. Também somos o pleroma inteiro, porque, no sentido figurado, o pleroma é o menor ponto (apenas suposto, não existente) em nós e no firmamento ilimitado que os rodeia. Mas por que, falamos afinal no peroma, já que é assim, tudo ou nada?

Falo nele para partir de algum começo e também para tirar-vos a ilusão de que em algum lugar, seja fora ou dentro, existe algo determinado, ou de qualquer forma estabelecido, desde o início. Toda coisa que se diz determinada e certa é apenas relativa. Só é determinado e certo o que for possível de ser modificado.

O que é modificável, porém, é a criatura. Por conseguinte, é a única coisa que está determinada e certa; porque tem qualidades: inclusive é a própria qualidade.

Impõe-se a pergunta: como se originou a criatura? Os seres criados perecem, a criatura não; pois o ser criado é a própria qualidade do pleroma, tanto quanto a não-criação, que equivale à morte eterna. Em todos os tempos e lugares existe a criação, em todos os tempos e lugares existe a morte. O pleroma tudo possui, individualmente e não-individualmente.

A individualidade equivale à criatura. É única. Constitui a essência da criatura e, portanto, a diferencia. Por conseguinte, o homem discrimina porque a individualidade faz parte de sua natureza. Daí também por que se distinguem no pleroma qualidades que não existem. Distinguem-nas por causa de sua própria natureza. Há pois que falar de qualidades do pleroma que não existem.

Qual a utilidade, direis, de falar nisso? Não foste tu mesmo que disseste que não adianta pensar no pleroma?

Isso eu vos disse, para tirar-vos a ilusão de que podemos pensar nele. Quando distinguimos qualidades no pleroma, falamos tomando por base a nossa própria individualidade e a respeito dessa mesma individualidade. Mas nada dissemos a respeito do pleroma. A respeito de nossa própria individualidade, porém, é preciso falar, para podermos distinguir suficientemente a nós mesmos. A nossa própria natureza é individualidade. Se não formos fiéis a essa natureza, não nos distinguiremos suficientemente bem. Temos, portanto, que fazer distinções de qualidades.

Qual o prejuízo, perguntareis, em não se distinguir a si mesmo? Se não nos distinguirmos, ultrapassando a nossa própria natureza, nos afastamos da criatura. Caímos na falta de individualidade, que é a outra qualidade do pleroma. Caímos no próprio pleroma e deixamos de ser criaturas. Nos entregamos à dissolução no nada. O que resulta na morte da criatura. Morremos, portanto, na medida em que não nos disinguimos. Daí o empenho natural da criatura para adquirir individualidade, para lutar contra a igualdade inicial, perigosa. A isso dá-se o nome de PRINCIPIUM INDIVIDUATIONIS. Esse princípio é a essência da criatura. Com isso podeis ver por que a falta de indivualidade e a não-distinção constituem grande risco para a criatura.

Devemos, pois, distinguir as qualidades do pleroma. Essas qualidades são ANTÔNIMAS, como, por exemplo:
O Efetivo e o Inefetivo.
Plenitude e Vácuo.
Vivos e Mortos.
Diferença e Igualdade.
Luz e Trevas.
O Quente e o Frio.
Força e Matéria.
Tempo e Espaço.
O Bem e o Mal.
Beleza e Fealdade.
O Uno e o Múltiplo etc.

As antônimas são qualidades do pleroma que não existem, pois uma contrabalança a outra. Como constituímos o próprio pleroma, também possuímos todas essas qualidades em nós. Por ser a própria base de nossa natureza a individualidade, possuímos, portanto, essas qualidades em nome e sinal da individualidade, o que quer dizer que:

1. Essas qualidades são distintas e separadas uma das outras em nós; por conseguinte, não são contrabalançadas e nulas, e sim efetivas. Somos assim vítimas dessa antinomia. O pleroma está dividido em nós.

2. As qualidades pertencem ao pleroma e só em nome e sinal da individualidade podemos e devemos possuí-las ou vivê-las. Temos que nos disinguir das qualidades. No pleroma estão contrabalançadas e nulas; em nós não. Sermos distintos delas liberta-nos.

Quando nos empenhamos no bem ou no belo, esquecemos consequentemente a nossa própria natureza, que é a individualidade, e nos entregamos às qualidades do pleroma, que são antônimas. Lutamos para conseguir o bem e o belo, mas ao mesmo tempo também ficamos com o mal e o feio, que no pleroma são inseparáveis do bem e do mal. Quando, porém, permanecemos fiéis à nossa própria natureza, que é a individualidade, nos distinguimos do bem e do belo e, portanto, ao mesmo tempo, do mal e do feio. E assim não mergulhamos no pleroma, ou seja, no nada e na dissolução.

Tu dizes, contraporeis, que a diferença e a igualdade também são qualidades do pleroma. Como seria, então, se nos empenhássemos na diferença? Agindo assim, não estamos sendo fiéis à nossa natureza? E, apesar disso, não devemos nos entregar à igualdade quando nos empenhamos na diferença?

Não deveis esquecer que o pleroma carece de qualidades.Somos nós que as criamos pelo raciocínio. Se, porém, vos empenhardes na diferença ou na igualdade, ou em qualquer outra espécie de qualidade, estareis imersos em raciocínios inspirados pelo pleroma; ou seja: raciocínios a respeito de qualidades inexistentes do pleroma. Na proporção em que vos lançardes a esses raciocínios, tornareis a cair no pleroma, atingindo ao mesmo tempo a diferença e a igualdade. Não é vosso raciocínio e sim o vosso ser que constitui a individualidade. Por conseguinte, ao contrário do que supondes, não é a diferença que deveis vos empenhar, mas no VOSSO PRÓPRIO SER. No fundo, pois, existe apenas um empenho, ou seja, o empenho no vosso próprio ser. Se tiverdes esse empenho, não precisareis saber nada a respeito do pleroma e suas qualidades e ainda assim atingireis a meta almejada em virtude de vosso próprio ser. Como,porém, o raciocínio se aparta do ser, devo ensinarvos esse conhecimento, por meio do qual podereis refrear vossos ensamentos.

domingo, 6 de novembro de 2011

ORIGEM DA POESIA por Malte Laurids Brigge

Pois versos não são, como as pessoas imaginam, meros sentimentos (estes a pessoa tem bastante cedo), mas são experiências. Por causa de um só verso, devemos ver cidades, homens e coisas, devemos conhecer os animais, devemos sentir como voam os pássaros e conhecer o gesto que as pequenas flores fazem ao desabrochar pela manhã. Devemos ser capazes de pensar retrospectivamente em estradas por regiões desconhecidas, em encontros inesperados e em separações que longamente se sentiram aproximar; em dias da infância que ainda continuam inexplicados, em pais que tivemos de ferir quando nos traziam alegria e não o entendemos (foi alegria para outrem); nas doenças tidas na infância que começa tão estranhamente com tantas transformações graves e profundas, nos dias em lugares afastados e quietos e nas manhãs ao lado do mar, e no mar mesmo, nos mares, nas noites de viagem correndo pela montanha e voando junto a todas as estrelas - e ainda não basta podermos pensar em tudo isso. Devemos guardar a memória de muitas noites de amor, nenhuma delas igual à outra, das risadas das mulheres ao trabalhar, e em mulheres alegres, brancas, dormindo em leito de criança, juntando-se de novo. Mas devemos também ter estado ao lado do morimbundo, ter sentado ao lado dos mortos no quarto com a janela aberta e os ruídos indecisos. E não basta ainda termos essas memórias. Devemos ser capazes de esquecê-las quando são muitas e devemos ter a grande paciência de esperar até que novamente retornem. Pois ainda não se tratará das memórias mesmas. Não até elas se tornarem sangue dentro de nós, reflexo e gesto, inomináveis, e não mais se poderem se distinguir de nós mesmos, não até acontecer que em hora muito rara a primeira palavra de um verso surja no meio delas e a partir delas continue.

sábado, 21 de maio de 2011

O VALOR OCULTO

Dásio Castro Filho resolveu fazer uma pesquisa junto a pessoas para saber o que elas pensavam sobre a Vida, sobre o que ele intitulou de:

O LADO “OCULTO” DO SER

Quando saímos da esfera comum da qual pertencemos e por algum tempo paramos para refletir, percebemos que somos os responsáveis, em muitos casos, pelos males ou doenças que nos aflige e nos mata.

Observando diariamente as pessoas vemos que elas correm... correm e estão sempre correndo.

Questionados a respeito de tanta correria muitos, independentes de classes sociais ou profissões, não souberam definir os por quês de tanta correria. Num tom de ironia responderam-me que: “É a vida...”

Contudo, ao pedir-lhes para definir o que entendem por VIDA, a maioria se esquivou e não respondeu. Observei que ficaram confusos. Alguns até conseguiram responder. Disseram que a vida é um movimento contínuo e evolutivo... Outros responderam que a vida é um ato da existência, e outros que a Vida é nascer, viver e morrer.

Entrevistei dezenas de pessoas e as respostas, em resumo, foram as seguintes:

O QUE É VIDA?
É estar bem, ter um bom emprego, ganhar bem, ter dinheiro para comprar uma casa, carro, poder viajar, passear com a família, é conseguir suas necessidades básicas para viver.

O QUE SÃO NECESSIDADES DE VIDA?
É trabalhar e fazer o que gosta, viver em um ambiente alegre, receber um bom salário e assim, ter uma boa qualidade de vida.

O QUE É QUALIDADE DE VIDA?
É ter saúde e sentir-se bem física e mentalmente, não precisar tomar remédios ou consultar médicos. É sentir-se feliz.

O QUE É FELICIDADE?
É sentir-se tranqüilo, em paz comigo mesmo e com os outros, ter um emprego que pague bem para que eu possa comprar as coisas que precisar e ter liberdade para fazer o que quiser.

O QUE É LIBERDADE?
É poder ir e vir, falar o que pensa, poder escolher sua religião e realizar os objetivos pretendidos.

O QUE É RELIGIÃO?
É acreditar em um propósito espiritual e sentir-se bem naquilo que faz. É sentir-se bem junto a outras pessoas, sem medo ou doença.

O QUE É DOENÇA?
É ter uma infecção, sentir dor no estômago, dor de cabeça; crise renal e por causa disso, sentir tristeza e infelicidade.

O QUE É INFELICIDADE?
É um estado de abandono, solidão, saudades e não ter alguém com quem compartilhar momentos alegres, é perder a vontade de viver e esse entregar à morte.

O QUE É MORTE?
Morte é quando você deixa de existir, seja por um acidente ou naturalmente ou até mesmo por causa de alguma doença, né?... rs. E aí, você já era!

Pelas respostas concluo que as pessoas de maneira geral vivem reprimidas, tímidas e apreensivas. Muitos condicionaram a vida e sua importância a ter um bom emprego e salário, sem o que, sentem-se inseguras e desprotegidas. Apresentaram algo por fora que não condiz com o ser oculto. Tentam mascarar, possibilitando o aparecimento de doenças. Tornam-se frágeis psicologicamente, entediadas, desmotivadas, depressivas e é desta maneira que trazem a doença para si.

Refletindo sobre o que ouvi, para mim o SENTIDO DA VIDA está naquilo em que o homem acredita ou deposita valor, ou seja: se acredita no dinheiro, a riqueza lhe será por recompensa; se ama a seus filhos e parentes, o mundo lhe será por recompensa; se valoriza o seu intelecto e conhecimento, a solidão lhe será sua recompensa; mas se o homem acreditar no sacrifício pela humanidade, eis, então a CHAVE DA VIDA. Sua alma se alegrará e não haverá angústias. Esta será sua recompensa.
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Dásio coloca de uma maneira simples, a necessidade do homem em se sentir incluído no mundo capitalista. A maioria das pessoas entrevistadas disse que um bom salário resolveria seus problemas com a vida não se dando conta de que são pessoas com potencial para produzir, uma vez que cada um tem uma vocação e um dom.

Vocação e dom que deixam de lado por não acreditar ou por não saber que o possuem e em que área. Vivem na normose e assim acreditam que serão aceitos. Ignoram os apelos que a alma faz deixando de se perceber em relação ao sentimento que brota como água de suas almas. Não dando atenção à estes sentimentos, as doenças tomam espaço, a religão (re-ligar) deixa de cumprir sua função, a felicidade fica para o futuro, a vida não existe, só a morte que acontecerá em algum momento.

Nós psicoterapeutas estamos a serviço do homem como facilitadores para que eles, cada um a seu modo, redescubra a si mesmo. Ser Humano capaz de exercer seu livre arbítrio com consciência de que existe um “Eu Interior” ou “Ser Oculto”que rege todo o desenrolar desse “drama”, a ALMA.

Elizabeth Sartori, Psicoterapeuta Junguiana e Psicanalista
e-mail: sartori.beth@gmail.com

sábado, 5 de março de 2011

Drogas X Cultura

Concordo plenamente com Ilustríssimo Ministro Juca Ferreira quando diz “...levar em consideração a dimensão cultural para cunhar políticas públicas mais eficazes e mais adequadas à contemporaneidade”.

Queremos estabelecer leis, limites para as pessoas que se vêem envolvidas com drogas, mostrando nosso medo de não saber lidar com essa situação. Se pararmos um momento para refletir perceberemos que a pessoa se dirigiu para esse caminho por alguma necessidade interna que não foi atendida ou compreendida. A primeira atitude que temos é discriminar e apontar todos os defeitos que a pessoa tem. Isso não só acontece com aqueles que se drogam fazendo uso de produtos químicos, como derivados da maconha, cocaína, bebidas alcoólicas, etc. como também para outras drogas que dominam o ser humano, como exemplo: o preconceito, a impaciência, o desconhecimento, a mania, a falta de vontade, o devaneio, a falta de reconhecimento de valores, e por aí vai.

Antes de discriminar um “drogado” precisaríamos perguntar o que o levou para esse caminho. Muitos vão colocar com firmeza que foi isso ou aquilo. O que irão colocar pode ser um véu para encobrir o que de fato não tem conhecimento. É mais profundo do que pensam. Aqueles que determinam isso ou aquilo estão encobrindo sua própria “droga” se colocando numa posição confortável diante da situação em que estão.

Há de se conscientizar o indivíduo de que a droga é só uma camuflagem para algo sobre o que ele não pode ou não quer olhar. Algo que o tira da realidade externa e o conduz para o mundo das possibilidades, talvez seja o descrédito num objetivo de vida ou sobre suas aptidões, a fuga das cobranças que faz a si mesmo, a falta de condições para elaboração e em conseqüência uma consciência dominada e incapaz de se ver.

Acredito que os limites são necessários, mas pensemos em como poderemos de fato colaborar para que o indivíduo se torne conhecedor dos motivos que o levaram para esse caminho e então, possa conscientemente e queira de fato vir para a realidade, para a sua realidade, dar a sua contribuição à cultura com o que melhor pode fazer. Sim, porque todo ser humano pode contribuir, uma vez que foi dotado com habilidades que talvez nem as conheça ou não lhes dá a devida importância.

Do outro lado, temos os fornecedores. Eles só existem porque existe uma demanda. Ao entregar a droga dizem compactuar com o mundo de possibilidades fantásticas, alimentando os devaneios de quem as consome. Eles, os fornecedores, estão na mesma situação daqueles que se drogam, porém sem fazer uso “in loco” dos produtos.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

COMPROMISSO

O texto abaixo, escrito por Rosa Avello, lança um instrumento para reflexão.
Se ao nascer a criança é ensinada a seguir uma cartilha ditada pelos conhecimentos dos pais, como é que ela pode conhecer seus próprios valores? E, então, como ficam os compromissos? À quem o adulto atende? A si próprio ou aos valores daqueles que o criaram?
Elizabeth Sartori, Psicoterapeuta Junguiana.


COMPROMISSOS SÃO FORTES PORQUE ENVOLVEM PRINCÍPIOS E VALORES
Por: Rosa Avello, Psicoterapeuta

Quando assumimos um compromisso – no âmbito amoroso ou em qualquer outro -, o fazemos conosco, em primeiro lugar, em respeito àquilo em que acreditamos, àquilo que sustenta nosso caráter. Por isso, compromissos não são fáceis de quebrar. Pelo menos por pessoas que se conhecem bem e se respeitam. Estas são as mais confiáveis.

“... O assunto é nebuloso no cenário das relações afetivas. Alguns honram compromissos inexistentes, outros desrespeitam os existentes, há os que franzem o nariz frente à idéia de se compromissar e os que ficam indiferentes a ela, como se fossem imunes às conseqüências.

... De saída, é preciso pontuar que a palavra compromisso significa “com mais promessa”. Talvez por isso o senso comum confunda uma coisa com a outra. No entanto, a diferença entre eles é grande: a promessa é verbalizada e se sustenta enquanto houver o desejo que deu origem a ela. Compromisso é uma postura interna que precede a ação e lhe dá um rigoroso sentido.

Promessas são resultado de intenções surgidas em determinadas circunstâncias. Se a ocasião muda, o desejo de cumprí-las pode acabar. Por isso é relativamente fácil quebrar promessas – a não ser que sejam garantidas por compromissos, que se apoiam em princípios ancorados em valores e os valores de uma pessoa são quase imutáveis (exceto em casos especiais), o que torna os compromissos mais consistentes do que as promessas.

Em outras palavras, compromissos são acordos que se faz em primeiro lugar consigo mesmo (em respeito aos próprios princípios e valores) e depois com os outros. É por isso que costumam gerar expectativas, mesmo que não sejam enunciados. Pressupõe-se que, se alguém tem caráter, valoriza os compromissos e sempre irá honrá-los.

Quanto mais consciência se tem dos próprios princípios e valores, mais consistentes e confiáveis são os compromissos estabelecidos.

...No geral, as pessoas não se percebem e quando fazem escolhas egoístas tendem a negá-las. Ao desrespeitar a si mesmas, têm ações incoerentes que confundem e magoam quem nelas confia...”

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

PARTICIPAÇÃO MÍSTICA


O momento em que o ser está completamente entregue aos cuidados maternos dá-se quando esse ser vive na inconsciência de sua identidade onde o “pensar” e o afeto não fazem parte da atitude psíquica em relação à outros seres e objetos, uma atitude primitiva.

Nos tempos das cavernas o homem vivia sem tomar conhecimento do que lhe cercava, ignorando seus sentimentos e os de outros homens. Vivia retirando da natureza aquilo que ela podia lhe dar e, sem a crítica necessária, recebia e se satisfazia. Era uma relação paradisíaca onde o sujeito não conseguia distinguir-se claramente do objeto, como alguém que podia dar sua contribuição. O que ele vivia era uma identidade inconsciente que podemos conceituar como um fenômeno psicológico e psicopatológico já que a identificação era com as coisas, funções, papéis, etc... uma identificação com o todo externo.

Na participação mística esse sujeito vive em função do outro sem se dar conta de sua individualidade e de suas necessidades onde o que importa é o “pensar”, o “querer” e a “satisfação” do outro, mesmo que as atitudes lhe resultem em descontentamento interior ou perda de algo que lhe promoveria para um nível mais elevado. Não se trata aqui de egoísmo ou egocentrismo, mas de uma atitude que não vê e não se percebe enquanto pessoa que pode direcionar sua capacidade para o bem de si e do coletivo, do externo. Seu direcionamento está somente em fazer-se indispensável para um outro elegido. Esse outro pode ser uma pessoa, uma empresa, uma religião, um grupo, etc...

Acreditando que em se fazer indispensável será reconhecido pelo outro, assim, como o filho que atende aos desejos e necessidades de sua mãe numa atitude psicológica de se sentir importante para ela, uma vez que foi ela que o trouxe ao mundo e à ela esse ser se vê na obrigação de ser-lhe grato para todo o sempre.

O que coloco aqui não é a mãe geradora, mas a imagem de mãe que a criança recepciona e a imagem de filho que ele acredita dever ser para essa mãe. Esse filho fica aprisionado nessas imagens por muitos anos e desloca, sem se dar conta, para outras áreas de sua vida, como por exemplo: a esposa, a empresa, qualquer outro que possa corresponder ao papel dessa imagem.

Se formos para a mitologia iremos encontrar dentre muitos, Eros, que enquanto menino, brincava com os sentimentos dos humanos lhes arremessando a flecha do amor. Obedecendo sua mãe Afrodite na sua vaidade, Eros atira uma fecha em Psique para que nela nascesse o amor por um monstro, porém ao atirar, erra e se fere com a própria flecha. Começa aí o caminho para o amadurecimento de ambos, Eros e Psique. Eros sente aí amor por Psique e a leva consigo com a condição de que ela nunca poderia vê-lo. Depois de algum tempo Psique o vê e devido a isso, ele a abandona “correndo” para junto da mãe Afrodite para ser acolhido, cuidado e poupado de viver o desconhecido, de deixar a infantilidade para a masculinidade que é o relacionamento de fato com a mulher.

Em contrapartida, essa pessoa, inconscientemente, se entende como um divino, uma vez que em se fazer filho dá importância para essa mãe. Ele nutre a vaidade dela.

Tomemos como exemplo a relação empresa-empregado. A criança na fase da escolha, na maioria dos casos, lança mão de sua vocação para atender aos desejos e frustrações da família. Vai trabalhar em uma empresa onde tem todo o apoio como um certo destaque, bom salário e benefícios. Sente-se acolhido por essa empresa que atende suas necessidades de sobrevivência e por isso não consegue dar vazão ao que realmente gostaria de produzir. Trabalha muitas horas para continuar provando que é um ser produtivo e que sabe o que quer e está fazendo o que realmente lhe dá prazer. Porém, passa o tempo todo querendo ser reconhecido dentro dessa relação. É como se ao fazer algo para a mãe ele recebesse um “muito bem, meu filho, você é indispensável na minha vida, sem você eu não viveria”. Esse é o momento em que essa criança se sente divina, só ela é capaz de realizar algo de importante para aquela empresa, para aquela mãe.

Esse reconhecimento é o que a criança espera que seus pais lhe dêem e se isso não acontece ela entra na frustração por um desejo não realizado, sem entender que a realização está em atender as suas necessidades de produzir algo genuíno proveniente de sua vocação, de sua habilidade, de seu Eu interior que clama para ser, esse, sim, reconhecido.

“O mundo se origina quando o homem o descobre. E ele o descobre quando sacrifica sua condição de envolvimento na mãe primigênia”, isto é, “pelo estado inicial inconsciente” enquanto “ser primeiro”. (Ivo Storniolo)
Por: Elizabeth Sartori

Baseado nos textos de:
Erich Neumann em História da Origem da Consciência
Carl Gustav Jung em O Desenvolvimento da Personalidade
Paolo Francesco Pieri em Dicionário Junguiano

sábado, 9 de outubro de 2010

O QUE SE ESPERA...



Segundo Erich Neumann o desenvolvimento da consciência transita por cinco fases desde a vida intra-uterina até os 21 anos quando, então, considera-se que o ser humano entra no momento de compreensão de si e do coletivo, na maturidade.

Na primeira fase, que vai desde a vida intra-uterina até os seis meses, aproximadamente, o ser humano não tem consciência de si, vive de acordo com os desejos e necessidades maternas. A inconsciência é tamanha que a comunicação em ambos é feita como se mãe e filho fossem uma única pessoa. Essa fase é caracterizada pela “participation mystique” que significa que esse ser não consegue distinguir-se como sujeito e tampouco como objeto, uma vez que ele é o poder que à mãe foi dado.

Se pararmos para refletir um pouco sobre essa primeira fase e voltarmos lá na história da humanidade, notaremos que a criança, assim como o homem das cavernas, vive no paraíso, onde são atendidas todas as suas necessidades de sobrevivência, não por ela, mas sim pelo o outro sem que precise dispender qualquer energia para obter êxito. Muitos seres humanos, já na fase “adulta” ainda se sentem nesse paraíso achando que o mundo entenderá quais são seus desejos e os satisfará, assim como a mãe o faz quando lhe dá o alimento no momento em que ele tem fome.

É o início ao culto do feminino onde a mãe se torna a Grande Mãe e a ela tudo é feito. É ela que deve ser cultuada e venerada porque é a matriz geradora de vida. Já na fase adulta muitos seres humanos ainda se vêem idolatrando essa mãe como a fonte geradora e à ela devem obediência, além de se sentir importante para ela e somente para ela. A mãe, por outro lado, faz de seu filho aquele que a salvará dos infortúnios que a vida propõe como se esse ser tivesse a responsabilidade e obrigações para com sua vida.

Na segunda fase, que vai dos sete meses aos cinco anos, o ser humano ainda vive numa ligação estreita com a mãe. Ele vive o mágico, usa seu corpo como elemento sedutor, é prepotente e se sente como aquele que dá o poder para a mãe. Ele começa a se perceber como sujeito, porém ainda não tem conhecimento e entendimento do que pode ou não fazer por sua livre escolha. Trata-se do “puer”, ou seja a criança, o infantil.

O “puer” é aquele que tem como atitudes positivas a espontaneidade, a criatividade, o interesse ativo pelas coisas de modo geral, a curiosidade, a participação, etc. e como atitudes negativas o afeto vivido na fantasia, considera o outro como uma ameaça, a entrega ao outro é um sinal de perda da liberdade, a preguiça, atitudes inadequadas diante de uma situação, a repressão de sentimentos, inadaptação social, isolamento, narcisismo, atitudes desdenhosas em relação à vida, etc.

Na terceira fase, que vai dos seis aos doze anos, o ser humano começa a adquirir consciência. Nessa fase a criança começa a se afastar da mãe, acha que o outro lhe causa problemas, se vê considerando a mãe ora como boa e ora como terrível. É a fase onde as crianças começam a acreditar em bicho-papão, em fantasmas. Aqui começa a entrar em cena o espírito como elemento propulsor para alcançar objetivos.

Na antiguidade é o momento da aparição das bruxas, dos dragões, dos deuses gregos, divindades que refletem as características psíquicas.

Na quarta fase, que vai dos treze aos vinte anos, o ser humano obtém recursos para se emancipar afastando-se totalmente da mãe. É a fase onde o ser humano se envolve com crenças e preconceitos. É o início de um segundo nascimento onde ele faz a separação do que é confortável, aconchegante e a lei, a ordem, a disciplina.

Nessa fase é comum o êxtase, o temor e ao mesmo tempo, o divino e esplendoroso. Tem-se início a moral e o refinamento da alma através do medo, da autoridade.

Na quinta e última fase, que é a partir dos vinte e um anos, o ser humano compreende seu papel na sociedade sabendo o que tem que fazer. Começa, então a viver a maturidade com luz e conhecimento. É o momento da busca de um parceiro afetivo-sexual. É a fase da conquista e libertação do herói. Segundo Byington, “Trata-se de um ego capaz de desapegar-se do seu narcisismo, ’virar a outra face’ ou ’amar ao próximo como a si mesmo’ porque sabe a função do Outro no seu desenvolvimento, a tal ponto que pode realmente empatizar o Outro e imaginar trocar de posições com ele”. Fase da compaixão, de empatia, de amor ao próximo. É a fase em que o homem busca o amor pelo amor, a ética pela ética, a justiça pela justiça, de acordo com uma vontade interna por valores interiores que transcendem a uma censura imposta do exterior.

É nessa fase que os símbolos de totalidade estão presentes, como a Eternidade, o Infinito, o Cosmos e a Existência.

O que se espera é que o desenvolvimento da consciência siga estas cinco fases dentro de um período estabelecido que vai da vida intra-uterina até por volta dos vinte e um anos, tendo então a fase da maturidade e consciência de si e do todo.

O que acontece é bem diferente do que se espera, em muitos casos, ou podemos dizer muitos dos seres humanos somente se dão conta de que há necessidade de um desenvolvimento psíquico quando chegam à meia idade, uma vez que são pressionados pela insatisfação de desejos não atendidos. Desejos esses que se situam entre a satisfação de uma necessidade e a demanda de amor. Essa insatisfação leva, na maioria dos casos, o ser humano a buscar meios de auto-conhecimento para chegar à fase da plenitude e satisfação plena.

Elizabeth Sartori

Baseado nos textos de:
Erich Neumann em História da Origem da Consciência
Carl Gustav Jung em O Desenvolvimento da Personalidade
Paolo Francesco Pieri em Dicionário Junguiano

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

AOS MESTRES COM CARINHO

Foi no ano de 2002 que tudo começou. Cheguei em casa bastante deprimida, fui para o meu quarto, pois queria ficar só, mas ao mesmo tempo buscava um caminho. Pensei em várias possibilidades e nada me agradava, foi quando eu liguei o rádio e sintonizei na Rádio Mundial que não conhecia. Lá, um homem chamado Mauricio de Freitas falava, o que me chamou a atenção. Gostei do que eu escutava. Foi quando este homem falou sobre um curso que ele iria ministrar chamado Intuição.

Quando estava lá, hesitei, mas gentilmente a secretária pediu-me que participasse de pelo menos dois encontros. A cada encontro, Maurício, com seu carisma e sua vontade de transmitir seu conhecimento, foi fazendo com que eu me apaixonasse por tudo que eu recebia. Bem, participei de todos os encontros e de mais outros cursos.

Em 2003, uma pessoa que conheci entre os participantes me indicou um curso de Hipnose que seria ministrado pelo Renato Liberman. Renato, outro homem carismático e bem intencionado me colocou em contato com a hipnose e depois com a cabala judaica.

No último dia do curso algo me chamou a atenção quando eu vi no mural do Instituto um anúncio do Curso de Formação de Psicanalistas e, então, pensei um pouco, e lá fui eu ver do que se tratava, pois eu nem imaginava e nunca havia ouvido falar dessa profissão. Deparei-me então com outra pessoa sem igual, Fátima Mora por quem eu tenho imenso carinho.

No mesmo ano, comecei a cursar a Psicanálise e concomitantemente entrei para me especializar na Teoria de Carl Gustav Jung, com Marcos de Santis. Hoje sou Psicanalista e Analista Junguiana atendendo individualmente e ministrando aulas dessa Teoria.

Recentemente me vi com problemas de saúde e como sei que a Sincronicidade se faz presente quando precisamos entender algo, fui levada ao encontro da Alquimia, cujo tema estudara há uns dois anos atrás. Relendo o livro “Estudos Alquímicos” pude perceber muitos aspectos que antes não me haviam chamado a atenção. Ao ler o tema “lapis philosophorum” voltei-me ao ano de 2002 e lembrei-me de uma música de autoria do Maurício de Freitas onde continha o termo lapis lazulli. Não pude me conter, queria ouvir novamente esta música o que infelizmente não pude, uma vez que o cd que eu tinha com suas canções havia sido levado num assalto. Procurei-a na internet, mas encontrei a pedra e fiquei encantada por ela. Talvez um símbolo que quer ser interpretado?

Talvez esse símbolo queira me dizer que o melhor de todo esse caminho é que ao trilhá-lo ele já é a indicação para a missão e para que isso fosse tomando um rumo, colocou nele os Mestres. É certo que não foi fácil! O autoconhecimento e os ensinamentos que pude ter desses Mestres: Maurício, Renato, Fátima e Marcos, que destaco aqui, foram e continuam sendo para mim de grande importância e valia,
“CARISMA, CONHECIMENTO, DISPONIBILIDADE, VONTADE, AMOROSIDADE, PACIÊNCIA”.
Agradeço do fundo de meu coração a oportunidade que a Vida me proporcionou. O que será no futuro??? Só quando chegar lá é que saberei...