terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A MENINA E O PÁSSARO ENCANTADO (Amor e posse)


Sentimento de posse não deve fazer parte do amor, que é a capacidade de suportar a distância, para nutrir a saudade e dar liberdade.

Era uma vez uma menina que tinha como o seu melhor amigo um pássaro encantado. Ele lhe contava histórias de outros mundos. É assim que nos encantamos com a vida e com todos aqueles que nos propiciam tal estado. O encanto é a necessidade da alma e o desencanto é o sofrimento. Um dia, para garantir o encanto, a menina prendeu o pássaro em uma gaiola especial. A partir daí, veio o desencanto e ela aprendeu que amar é a capacidade de suportar a distância, para nutrir a saudade e dar liberdade ao outro de ir e vir.

Quando o cimento da posse e do desejo de controlar tenta unir as partes que se amam, em lugar do bem-estar ficam a tristeza e o sentimento de morte. Precisamos da saudade. Essa, sim, preenche a nossa sensação de incompletude, tão necessária para fortalecer o encanto que existe no amor. A saudade desaparece quando prendemos o outro com nossas inseguranças e medos, de amar e ser amado, deixando-o cinzento e triste. Com o temor de sentirmos a angústia da incompletude, construímos prisões feitas com o nosso egoísmo e as frustrações das nossas expectativas não atendidas. Desejamos eternizar os bons momentos de estarmos juntos esquecidos de que só poderemos percebê-los quando também experimentamos o distanciamento.

Vivemos a liberdade e o amor como uma antinomia. Na mitologia grega, o deus do amor tem asas. Mas também esse mesmo deus carrega flechas que ferem. E se não queremos nenhuma dor, nem a da suade, aí cometemos o erro de usar o amor sem o seu outro lado - a liberdade. Quando a menina comprou a gaiola, ela esperou que ele se acostumasse preso. Mas o tempo passou e tudo ficou triste. Ninguém se acostuma com a prisão. Nossa alma quer habitar um corpo em que ela sinta a sua liberdade de viver, caso contrário ela mata esse corpo para ter a sua liberdade de voar. Quando chegamos a esse ponto de não mais enxergarmos ao colorido da vida, arrependidos, some-se o encanto da vida e precisamos de psicoterapia.

Jung nos ensinou, na prática, quatro fases: Confissão, Esclarecimento, Educação e a Transformação. Para esse entendimento, ele recorreu também ao comportamento dos alquimistas. Esses seguiam um caminho muito parecido com a busca espiritual. Utilizavam as mais diversas substâncias, matéria bruta, para transformá-las em um material refinado e evoluído. Esses materiais poderiam ser, por exemplo, leite de virgem, menstruação de prostituta, urina de criança e assim pó diante. Por analogia, Jung comparou com o processo do homem em análise: chega nesse “estado bruto” e sofre a transformação até se tornar um ser mais elaborado. Os alquimistas utilizaram o latim para nomear as fases por que passava a matéria: Nigredo, Albedo e Rubedo.

Quando chegamos ao consultório, chorando as mágoas do arrependimento ou, simplesmente, com a grande dor da perda do outro, que parecia pertencer às nossas entranhas, fazemos a Confissão. Estamos na Nigredo. A fase que sugere a morte, a sombra e o sofrimento. Aqui não sabemos separar os problemas nossos e os do mundo.

Certa vez o pássaro voltou branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão. Ele cantava as canções e as histórias maravilhosas daquele mundo que a menina nunca vira.  Essa fase é a chamada Albedo, do Esclarecimento e da Educação. Aprendemos sobre as nossas responsabilidades com o que acontece em volta. Há um encantamento e tudo começa a fazer sentido.

De uma outra vez o pássaro voltou vermelho como o fogo. E de novo começavam as histórias. Essa é a fase da Rubedo. É a hora de vier a vida com paixão, fogo e ardor. Aqui acontece a Transformação. Enxergamos mais longe.

Agora sabemos que o ato contra outrem é também contra nós mesmos. Aprendemos a não corromper a ordem – não por medo do pecado ou de ser preso, mas por sentir não ser o correto. É a vida nova, a criança divina. O Natal.

...
Carlos São Paulo
Médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia.

A MAIOR DE TODAS AS CAUSAS (Qual o sentido de sua existência?)


... Qual o sentido de sua existência? Na Grécia Antiga garotos eram educados para que, até seus 15 anos, fossem capazes não apenas de responder a essa pergunta, mas também de apresentar uma sustentação oral que defendesse sua resposta diante de uma banca de notáveis do calibre, por exemplo, de Sócrates, Platão ou Aristóteles. Nada mal para um bando de garotos analfabetos!

Sim, pois de acordo com esse sistema educacional, chamado Paideia, habilidades tais como leitura, escrita e até mesmo a nobre matemática era consideradas secundárias; mera teknè, diriam os antigos. O objetivo da Paideia era moldar o caráter. “As letras virão com o tempo”, dizia Sócrates.

Ser capaz de responder qual o sentido da sua existência nunca foi uma tarefa simples. Nem mesmo na Grécia Antiga1 e é por isso que os gregos se dedicavam tanto à capacitação de seus jovens no sentido de torná-los homens-excelência, ou seja, homens de caráter.

Contudo, o próprio conceito de caráter ia além da simples prática das virtudes. Tinha a ver com a realização das potencialidades individuais ou, para ser mais precisa, com o cumprimento do sentido da existência de cada indivíduo. Esse era o conceito arcaico de sucesso, que em muito difere da visão distorcida que hoje perseguimos. Em outras palavras, podemos dizer que todo o sistema educacional da Grécia Antiga buscava o ser, ao passo que, hoje, nossa Educação valoriza o ter.

É por isso que, atualmente, consideramos o sucesso como sendo o resultado de um processo, o que acaba por justificar nosso comportamento insano de sacrificar toda uma vida em prol, por exemplo, da construção de um patrimônio. Alheios ao fato de que o amanhã não nos pertence, seguimos, rumo a um futuro que, pretensamente, nos fará felizes.

O problema é que, enquanto isso, vamos nos distanciando da nossa essência a tal ponto que a própria Paideia chega a nos parecer ficção: “Como um homem poderiam aos 15 anos, saber qual o sentido da sua existência?, perguntamos a nós mesmos, maravilhados e indignados ao mesmo tempo.

Mas o distanciamento da nossa essência nos cobra um preço alto. Tão alto quanto costumava cobrar na Grécia Antiga, é verdade. A diferença é que os antigos sabiam disso, enquanto que nós no acostumamos com uma insatisfação crônica, uma espécie de infelicidade latente, que faz com que muitos cheguem a duvidar da própria existência de felicidades. Isso sem falar numa infinidade de males físicos e sem causas aparentes que acometem boa parte da clientela dos atuais planos de saúde.

Para os gregos, esses males seriam facilmente associados ao distanciamento do indivíduo em relação à sua essência, o que faria com que os sábios de Epidauro, por exemplo, imediatamente recomendassem o recolhimento e a conexão com seu “eu interior” para qualquer “enfermo” que os procurasse. Isso significa que, para os gregos, havia uma verdade interior que acompanhava o indivíduo e exigia dele sua autorealização. Como vemos, o problema sempre esteve na conexão.

Acredito que hoje, embalados por um ritmo de vida alucinante, agravamos nosso problema de conexão com nosso eu interior. Sócrates dizia que o homem desconhecido de si mesmo é um bárbaro. A partir dessa visão, vivemos hoje na barbárie. Quantas pessoas dedicam um esforço consciente para se conhecerem melhor? Quantos de nós são capazes de responder prontamente acerca do sentido de sua existência?

Perguntas como essas deveriam encabeçar nossa lista de prioridades. Ao invés disso, nossa listam provavelmente, está tomada por itens que envolvem o ter. Quando foi que começamos a nos distanciar de nós mesmos? Daquilo que mais importa?

Para compreender a amplitude do que estou dizendo, faça a si mesmo a seguinte pergunta: Com eu seria hoje se tivesse me dedicado ao autoconhecimento metade do que me dediquei ao trabalho e às minhas conquistas profissionais?

Isso me faz lembrar de uma frase de Nietzsche que dizia que “quem tem por que viver pode suportar quase qualquer como”. Nesse sentido, se engana quem acredita que a pressão da vida moderna nos está adoecendo. A doença da modernidade é a anomia, ou seja, a falta de sentido. Talvez fossemos mais resilientes se soubéssemos qual é a nossa “causa”. Infelizmente, passamos a acreditar que somente os heróis lutam por uma causa. Com isso, nos acostumamos a uma vida sem sentido e nos esquecemos de que podemos ser heróis, ainda que isso nos custe a felicidade e até mesmo a saúde.

...saber o sentido da sua existência é, mais do que um caminho para a felicidade, uma garantia de que sua vida não terá sido em vão.

Lilian Graziano 
Psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento. 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

MATERIALISMO versus MISTICISMO


“O materialismo racionalista, atitude mental aparentemente insuspeita, é, na realidade, um movimento psicológico de oposição ao misticismo...” Jung
Se o indivíduo tem seu olhar e sua energia voltada para o materialismo (aquisição de bens, posição social, cargos, enaltecimento do corpo e até mesmo o sexo com e tão somente para a satisfação física) em compensação vai em direção ao místico, à magia. Para ele a palavra de, por exemplo,  uma cartomante, astróloga e até mesmo uma simpatia, irá lhe ditar os acontecimentos que farão parte de sua vida. 
Um indivíduo inconformado por não estar conseguindo determinado objeto, poderá procurar um desses mágicos para ouvir dele quais os acontecimentos que cercarão sua vida num futuro breve e ouvirá com credibilidade o que ele tem a falar. Colocará poder em suas palavras e o tratará como um ser que tem contato com o místico, como se essa pessoa fosse a escolhida por Deus para profetizar acerca da vida de outras pessoas.
Diante dessa consulta tão envolvente, por vezes com certa encenação, o consulente sairá de lá esperançoso e/ou motivado ou ainda, assustado com o que ouviu e então, moldará sua vida nas palavras que o tal místico falou-lhe durante a consulta.
“No momento místico, ao contrário, é verdade, sublinha Jung, que emerge aquilo está escondido da consciência (e aquilo que, em graus diversos, se esconde em toda neurose). Mas, com esses conteúdos psíquicos particulares, a consciência não deve chegar a conclusões (redução) e sim confrontar-se (integração).”
Pensando um pouco sobre esse assunto ocorre-me  que se o místico fosse realmente o escolhido teria ele a pobreza dentro de sua casa? Talvez sim, talvez não. Se sim, ele vive tão enfiado no mundo das suas imagens que não consegue a tal conquista anunciada ao consulente e se não, ele é tão materialista quanto o indivíduo que o foi buscar. Acredito que eles fazem seu papel na sociedade ao atender as pessoas necessitadas de um sentido. Dão um placebo (do latim placere, significando "agradarei" é como se denomina um fármaco ou procedimento inerte, e que apresenta efeitos terapêuticos devido aos efeitos fisiológicos da crençado paciente de que está a ser tratado).
Por acreditar piamente no que foi dito na consulta, o indivíduo vai em direção ao objetivo e muitas vezes consegue atingí-lo. Isso pode acontecer não porque lhe foi previsto, mas porque ele reage ao momento em que está vivendo. Como o indivíduo, neste caso, é um ser orientando pelo outro e não por ele mesmo, certamente pagará um preço e poderá buscar novamente o místico para resolver. Fica num círculo vicioso e não entende a vida sem a “ajuda” de um guia.
Não existe nenhuma razão para querer conhecer mais do inconsciente coletivo do que se consegue por meio de sonhos e intuições. Quanto mais se sabe sobre ele, maior e mais pesada a responsabilidade moral, porque os conteúdos do inconsciente se transformam em tarefas e responsabilidades individuais tão logo começam a se tornar conscientes. (Jung, 1991, p. 389) 
Por outro lado, podemos refletir sobre a importância que tem a materialidade para o Ocidente. Nós do mundo ocidental somos constituídos psiquicamente para atingir objetivos externos. O ter tem certa importância para nós e não há como abrir mão totalmente em prol da orientalidade. Imagine-se deixando o Brasil para morar no Himalaia.
Será que esse ter é uma disponibilidade interna de prosperidade ou o atendimento ao que o outro (o místico, os pais, o amigo, o vizinho, o chefe...) quer que seja feito? 
Elizabeth Sartori
Psicanalista – Analista Junguiana
Beth.psicanalista@yahoo.com.br



sábado, 12 de maio de 2012

FRACASSO



O poema abaixo é para aqueles que aprenderam que o sucesso está vinculado a um fracasso e que ao reconhecê-lo, aceitá-lo com parte da vida e refletir sobre ele dá ao indivíduo a chance de ampliar sua consciência.

Vimos por aí muitos que se tornaram famosos e sucumbiram ao sucesso chegando ao ponto de perder sua identidade em prol de uma personalidade desejada e exigida, sob diversas formas e pretextos de outros, seja da família ou do coletivo, chegando até a morte por não aguentar a demanda.

Será que o ego tão inflado com o sucesso pode aceitar que em algum ponto fracassou? Para que ocorra o reconhecimento é preciso coragem, humildade, vontade e antes de mais nada, um firme propósito.


FRACASSO
Tudo o que tomei como vitória é só fumaça.
Fracasso, linguagem do fundo, pista de outro espaço mais exigente, e difícil ler a tua letra nas entrelinhas.
Quando punhas tuas marcas na minha fronte, jamais pensei na mensagem que trazias, mais preciosa que todos os sucessos.
Teu flamejante rosto me perseguiu e eu não soube que era para me salvar.
Para meu próprio bem relegaste-me aos cantos, negaste-me fáceis êxitos, fechaste-me as saídas.
Era a mim que querias defender, não me outorgando brilho.
De puro amor por mim dirigiste o vazio que tantas noites me fez falar febril a uma ausente.
Para me proteger cedeste o passo a outros, tens feito com que uma mulher prefira alguém mais determinado,
afasta-me de tarefas suicidas.
Tu sempre vieste para me salvar.
Sim, teu corpo chagado, cuspido, odioso, recebeu-me em minha mais pura forma para me entregar à nitidez do deserto.
Por loucura eu te maldisse, te maltratei, blasfemei contra ti.
Tu não existes.
Foste inventado pela delirante soberba.
Quanto te devo!
Promoveste-me a uma nova classe, limpando-me com uma esponja áspera, lançando-me a meu verdadeiro campo de batalha, cedendo-me as armas que o sucesso abandona.
Conduziste-me pela mão para a única água que me reflete.
Por ti eu não conheço a angústia de representar um papel, de manter-me á força em um escalão, de subir com esforços próprios, disputar por hierarquias, inflamar-me até explodir.
E fizeste-me humilde, silencioso, rebelde.
Eu não te canto pelo que es, mas por aquilo que não me deixaste ser. Por não me dar outra vida. Por haver-me limitado.
Deste-me apenas nudez.
Certo que me ensinaste com dureza e tu mesmo me cauterizaste! Mas também me deste a alegria de não temer a ti.
Obrigado por tirar-me a densidade em troca de tuas rudes palavras.
Obrigado por me privar das vaidades.
Obrigado pela riqueza a que me forçaste.
Obrigado por construir com barro a minha morada.
Obrigado por apartar-me.
Obrigado.
Poema de Rafael Cadenas extraído do livro Ansiedade Cultural de Rafael López-Pedraza.

terça-feira, 8 de maio de 2012

EU E O CARTEIRO - VALORES, RESPEITO, ALTERIDADE...


Vinha eu pela marginal pensando e apreciando o fato de dirigir e num determinado ponto houve um congestionamento. Percebi que não chegaria ao meu destino no horário previsto, mas fazer o que? O jeito era relaxar e esperar o trânsito fluir, mas mesmo assim eu não gostei muito de andar em primeira e segunda. Bem, comecei então a refletir, cercada de várias informações recebidas e vivências internas, sobre os filhos que somos.

Por definição a mulher contem no seu interior um masculino (Animus) apreendido da relação com a figura paterna, assim com o homem contem no seu interior um feminino (Anima) apreendido da relação com a figura materna.

Segundo Alberto Pereira Lima Filho no livro O pai e a psique: O pai é mediador de uma relação; determinada em que bases, até que ponto, dentro de que abrangência ou limites, com que regras, com que qualidade de inserção ou afastamento, com que métodos, regularidades, finalidades, responsabilidades e objetivos as diversas relações do filho com o mundo, com o outro e consigo mesmo irão se estabelecer. O pai discrimina o mundo em categorias, tornando-o compreensível e, portanto utilizável; interrompe o que até então era natural” para instaurar o deliberado, o escolhido, o proposital, o eleito, o consciente. E fornece critérios para tudo isso (...).  Com seus limites humanizadores, o pai apresenta ao filho os códigos da sociedade à qual deverá pertencer, mas a confiança e o sentimento de segurança experimentados em relação ao grupo social são heranças da relação erótica com a mãe, fundamento para todo relacionamento ulterior.

Entendo que o que o autor coloca nesta frase seria o lado positivo dos arquétipos, só que não é bem assim que acontece. Se mãe e pai também enquanto filhos receberam informações sobre as quais representaram de uma maneira negativa, passaram para os seus filhos a mesma informação, talvez, de um modo diferente por que dependeram do momento cultural e social em que estavam inseridos. Estes somos nós agora!
A função do pai é interditar a mãe, no que ela representa para que o filho ou a filha se mova em direção ao mundo externo. Nesse momento a consciência é afastada do inconsciente para promover o processo de capacitação, instrumentação e diversificação de recursos. Fase que levará alguns anos até que esses filhos, por conta de uma grande crise comecem a reconhecer que existe um inconsciente que pede passagem. A famosa crise da meia idade!!!

Só que, na fase de seu reinado, de um modo geral, o pai se porta como o deus-todo-poderoso não permitindo ao filho que ele o ultrapasse e com isso o prende ao sistema patriarcal de valores proporcionando-lhe um difícil acesso à alteridade que é a etapa de desenvolvimento psíquico posterior ao patriarcado (matriarcado->patriarcado->alteridade->cósmico). Este filho não percebe que é possuidor de uma energia para sentar junto ao pai e apreciar, considerar, legislar, ir à luta e vencer. Já a filha se tornará refém por sua servidão, uma vez que a mesma é desqualificada de valor enquanto ser humano produtivo e contribuidor com a evolução e assim, estará tão envolvida no patriarcado quanto o filho. Ela fará tudo o que puder para ser uma boa filha para o pai, uma boa esposa para o marido, uma boa empregada para o patrão, uma boa devota para o padre, ... A maneira como ela se sente capacitada para isso é servindo e colocando o homem como detentor do poder, não se dando conta de que ela é a genitora da raça humana e orientadora do que é natural, como nutrição, cuidados, proteção...

Quando equilibrada a conduta mãe-pai, cada um dentro de suas funções psíquicas procederá à alteridade que é um incluir o Outro na relação ou, como disse meu analista Marcos de Santis, a alteridade é “Eu sou o Outro”.

Essa expressão “Eu sou o Outro” entrou pelos meus ouvidos e se instalou em minha alma como se dissesse o quão feliz eu posso ser ao me ver, ao me falar, ao me sentir, através do Outro.
É claro que depois de tocada na alma, a vida põe diante de nós algo para que possamos sentir de perto e reconhecer o que apreendemos.

Ao chegar bem próxima ao meu destino vi o carteiro do bairro se dirigindo para atravessar a rua por onde eu ia passar.  Compreendi naquele momento o quanto valia a sua atividade profissional e, sem ser tão necessário, pois na rua só havia um único carro em movimento, o meu, parei para lhe dar passagem, ao que com um sorriso largo ele me disse para prosseguir. Naquele momento senti o respeito mútuo entre eu e o carteiro.  Alteridade?!? 

domingo, 29 de abril de 2012

O CONFRONTO DE OPOSTOS

Nós, na nossa egocentricidade pensamos que confrontamos com o que não nos agrada, mas será que é isso?

O que me parece e que fazemos uso de uma atitude infantil para nos livrarmos da responsabilidade desse confronto.

Tomados pela emoção, ficamos cegos diante de uma situação, gritamos, esbravejamos porque no momento do acontecimento, somos tomados por uma força que parece aniquilar toda a consciência. Quantos de nós já vimos uma criança não atendida em seus desejos? Pois é! Ela não quer saber se você pode ou não atendê-los. Ela simplesmente quer e grita por isso, chora por isso, briga por isso, não é mesmo?

Quando vamos adquirindo consciência já não é mais assim. Se nos comportamos como crianças, nos sentimos mal logo em seguida e nos sentimos culpados pela forma como conduzimos a situação, mesmo assim, entregamos a responsabilidade ao outro como se este fora responsável pela nossa decepção. É um misto de ser responsável pelo que falamos mais a egocentricidade.

Com mais um pouco de consciência e no momento em que a situação está acontecendo, nós vamos nos sentindo mal, agora não mais depois do ocorrido, além desse mal estar já somos capazes de perceber que temos nossa parcela de responsabilidade no confronto.

Acredito que a individuação (ser um indivíduo na sua totalidade) é o momento em que, seguros de si mesmos, dialogamos com os nossos problemas, com as nossas dificuldades, com os nossos dissabores, nos sentimos aptos a reivindicar nossos direitos, respeitando as leis da natureza. Bem, é estarmos com os sentidos atentos e voltados para os mundos interior e exterior.

Tarefa fácil!? Não é uma tarefa fácil. 

Enquanto somos jovens acreditamos no amanhã, vivemos uma ilusão. Aproveitamos do fator tempo acreditando de fato que ele está a nosso favor. A morte!!! Nem pensar!!! Esse é um assunto proibido na primeira metade da vida, é assustador e não tem vez nesse período da vida.

Já na segunda metade da vida, o caminho toma um outro rumo. Começa a preparação para a morte, no entanto, acredito que é nesse período que começamos a viver. Queremos aproveitar cada minuto do dia, mesmo que seja para não fazer nada. O fato de estar consigo mesmo, vivo, produtivo e saudável física e psicologicamente é uma benção.

Há os que ainda não entendem essa forma de pensar e criticam acirradamente, por exemplo,  as pessoas da terceira idade, não sabendo que a experiência de vida que eles tem é o seu maior tesouro e que qualquer pessoa pode ser presenteada com uma jóia dele. É só querer!  

terça-feira, 17 de abril de 2012

A MELHOR DAS ALTERNATIVAS - PACIÊNCIA ALIADA A FÉ


Em meu sonho, havia uma situação em que um homem me dizia:

- Você está fazendo alquimia.


Ao acordar, fiz o que normalmente tenho feito sem nenhuma exceção. No caminho para a empresa, comecei a pensar em várias coisas, pensei no livro que estou lendo, nas situações que eu e meus amigos estão atravessando, no barulho do trânsito, na falta de paciência dos motoristas e então, me dei conta da ansiedade que nos acomete quanto aos nossos desejos.


Passamos a vida querendo, lutando por algum objeto (aqui o objeto como expressão de qualquer coisa como materiais, pessoas, posições, reconhecimentos, felicidade, paz, etc). Insistimos, conseguimos, não conseguimos, nos alegramos, nos desapontamos e tentamos novamente. Cada dia que passa é mais um dia de luta, de satisfações e insatisfações quanto aos resultados daquele dia. Queremos conquistar! E ter para nos sentirmos vitoriosos. É um círculo sem fim. Exauridos e dependendo da intensidade dos desejos e da idade, chegamos até pensar em morte por não agüentar carregar sobre os ombros tantas expectativas. Outros simplesmente desanimam e se lançam para outro desejo e tudo começa novamente.


Aqueles que supostamente conseguem, ficam com uma conta a pagar. A psique parece atender ao desejo dessa pessoa e lhe dá, até algo aparentemente melhor do que havia imaginado, mas em contraposto a pessoa precisará pagar de alguma forma por essa insistência. Se analisarmos situações onde isso aconteceu poderemos perceber que o pagamento começou bem antes do resultado ser alcançado, com uma concentração de libido (energia) na realização do tal desejo e desgaste dessa mesma libido em outras atividades. É por essa razão, acredito que as pessoas ficam cegas diante dos outros objetos que se põem à sua frente, como: saúde, isolamento forçado, relacionamentos, etc.


Refletindo mais um pouco sobre esse tema, pensei na aprendizagem. Se precisássemos ir de um país ao outro nos ocuparíamos da compra de bilhetes de transporte, das acomodações, das refeições, das roupas, sapatos e tantos outros detalhes que deixariam essa lista longa demais, além, é claro de toda uma pesquisa sobre cultura do povo, clima, pontos turísticos. Depois de tudo pronto, chegamos ao país e, não é que faltou alguma coisa!!! Achamos que isso foi ruim e nos prometemos que na próxima será diferente.


Levando essa metáfora para a nossa vida me dei conta que todas as peças precisam se encaixar. Percebo que “correr atrás”, se esvair em ansiedades, se lamentar por não ter conseguido, perder noites de sono, significam que nós não conseguimos aprender a lição da viagem.


Na psique tudo vai se ajustando de acordo com a meta de cada ser. O que, talvez, nos cause aflição é em saber qual a nossa meta, mas quanto a isso nada podemos fazer enquanto não entendermos seus sinais. Não há pressa, só paciência consigo e fé de que a cada tomada de consciência, na chegada ao nosso destino, nos sintamos livres e fortes para lidar com algum sentimento de frustração por termos esquecido algo lá atrás, tendo a coragem de reconhecê-lo tomando como algo a ser refletido e reintegrado à nossa psique.


Segundo o filósofo Kant, “a paciência é amarga, mas seus frutos são doces.” e para Plutarco, “a paciência tem mais poder do que a força”.


Diz-se que Deus escreve certo por linhas tortas, mas não há dúvida que nada ocorre nem se move sem seu consentimento.


Elizabeth Sartori

Psicanalista e Analista Junguiana

domingo, 15 de abril de 2012

A IMPOTÊNCIA DO MASCULINO


Priaprismo, segundo a medicina, é uma condição patológica da ereção prolongada não acompanhada por desejo sexual podendo ocorrer em qualquer idade.

Priaprismo deriva do mito de Príapo, deus dos genitais enormes. A adoração a esse deus deu início em Roma a partir de Augustus e na Grécia após a dominação Macedônica. Ele surge devido à necessidade do homem ganhar consciência de algo que estava cindido ou separado. O mito de Príapo aparece então como símbolo de mudança da cultura para reintegrar parte da masculinidade que havia sido separada da consciência, levando-a a uma expansão, por compensação e tornando-a inflada. Seu aspecto é perigoso para o indivíduo, uma vez que o ego se identificará com o Self que é o centro do inconsciente que equivale a um nivelamento por baixo, em favor da realidade do inconsciente.

“Anexar as camadas mais profundas do Inconsciente, as quais denominei Inconsciente Coletivo, produz um engrandecimento da personalidade que leva ao estado de inflação” Jung

O falo é o instrumento fisiológico da capacidade criadora masculina quando túrgido e “inflado”. Constituiu-se em metáfora de masculinidade e a sua inflação é um processo essencial à dinâmica masculina. Mas a proximidade ambígua dos aspectos túrgido e inflado contribuiu para a facilidade de o homem contemporâneo sucumbir ao seu lado destrutivo.

Phallos é a energia com a qual o homem cria, representando a libido e não o órgão sexual. A relação adequada com o phallos leva ao encontro criativo entre masculino e feminino, ao relacionamento. Separar-se dele (castração), resulta em obstinação pelo seu resgate, em encantamento e em esterilidade. A busca obstinada pelo resgate do phallos infla a importância do objeto procurado levando o indivíduo que não tenha percepção psicológica a confundir o símbolo concreto com o objetivo. Será uma busca sem limites e com resultados negativos.


O MITO

Pausânias acreditava que Príapo era filho de Dionísio e Afrodite, embora Adônis, Hermes e Pã também tenham sido mencionados como possíveis pais, e Quione também como mãe. Por ciúmes, ou por sentir-se ultrajada pela promiscuidade de Afrodite, Hera fez Príapo nascer com genitais enormes. Uma barriga grande e outros exageros também às vezes lhe são acrescentados. A mãe o abandonou e ele foi criado por pastores.

O grande pênis de Príapo é o foco da elaboração psicológica. O seu tamanho significa que se deve levar em conta as implicações do exagero fálico.Príapo nasce do êxtase físico instintivo (Dionísio) e da sexualidade (Afrodite). Considerando que Príapo poderia ser filho de Adônis e Hermes, ele tende a ser o produto de uma masculinidade bela e adolescente, até aparentemente afeminada, como se os genitais enormes compensassem pela masculinidade nascente do pai, com a qual Afrodite ficou fascinada. Hera ao dar-lhe genitais enormes, seria uma tentativa de restituir o equilíbrio aos afetos de Afrodite.

As histórias de Príapo foram associadas ao asno. Na primeira Robert Graves cita o relato de Ovídio, em que Príapo tenta violar Héstia enquanto estava “bêbado “numa festa de camponeses assistida pelos deuses, quando todos caem no sono, após beberem demais: mas o zurrar alto de um asno acorda Héstia, que grita ao ver Príapo prestes a montar sobre ela, o que o faz sair correndo, num terror cômico”.

Por ser abandonado pela sua mãe (Afrodite) Príapo se sente inseguro quanto à domesticidade do lar (Héstia). A modéstia não é de sua natureza e essa é uma das características de Héstia, além da domesticidade. Para Héstia assim como para muitas mulheres nos dias atuais não acham fácil sucumbirem-se de das funções maternas. Príapo, na tentativa de ataque à Héstia, o faz movido pelo ódio da perda, resultado da experiência do abandono que sofrera.

Outra história que é contada por Higino, Príapo envolveu-se numa discussão com um asno dotado de voz humana por Dionísio sobre vantagens sobre o tamanho dos genitais e Príapo levou a pior. Enfurecido Príapo espancou o asno com um bastão até matá-lo.

O asno neste conto lhe é associado. O asno é o espírito do vento do deserto, vento seco/quente, carregado de pó, em algumas regiões; quente/úmido, acompanhado de chuva em outras; e quente/opressivo. Traz consigo os sonhos maus, impulsos assassinos e estupros.

Sua imagem era posta em jardins onde “ele propicia a fecundidade dos campos e rebanhos, a criação de abelhas, o cultivo das vinhas e a pesca”, “ele é fruticultor, e carrega uma faca de poda”, é o podador da pereira”, árvore consagrada à Hera.

Príapo carrega uma faca de poda que simboliza a sua ligação com a castração. As imagens fálicas consagradas à Príapo eram colunas de madeira, árvores. A pereira era consagrada a Hera e era chamada de Ápia, a principal deusa do Peloponeso (grego: Πελοπόννησος; transl.: Pelopónissos é uma península no sul da Grécia). A imagem mais antiga de Hera, enquanto deusa da Morte no Héreo de Micenas era feita de madeira da pereira.

“Outro símbolo materno igualmente comum é o bosque da vida... ou a árvore da vida. Primeiramente a árvore da vida pode ter sido uma árvore genealógica produtora de frutos, conseqüentemente, uma espécie de mãe tribal. Inúmeros mitos dizem que seres humanos nasceram de árvores, e muitos relatam como o herói havia sido aprisionado no tronco de uma árvore materna,... Numerosas divindades femininas eram adoradas sob a forma de árvores, vindo daí o culto de árvores e bosques sagrados. Assim, quando Átis castra-se sob um pinheiro, ele o faz porque a árvore tem um significado materno.” Jung – Símbolos de Transformação parágrafo 321.

Pensando em termos de compensação psíquica, se o indivíduo conceber um falo exagerado terá um contraposto e mesma intensidade para evidenciar o que o inconsciente está pedindo. Somente com insight e com boa vontade o indivíduo ganha consciência de sua atitude psicológica, caso contrário, a inflação será o caminho que o masculino segue para dar sentido a si mesmo.

O que acontece é que o indivíduo quer se sentir inflado e pode recorrer ao poder mágico, p.ex. cartomantes, astrólogos ou outro tipo de magia. Ele não admite a falta de poder. O indivíduo tem a necessidade de manter o poder que é a restauração do inconsciente e por conseqüência o fracasso é inevitável mais cedo ou mais tarde. Essa atitude também acontece quando o indivíduo busca a análise. Ele acredita que ao se submeter a analise voltará a sentir a alegria anterior que fora perdida e que fora baseada na posição egóica inflada sem o conhecimento de que a deflação é que traz o resultado para um encontro com a realidade.

Quando Príapo faz uso da faca de poda, ou seja, quando o indivíduo é humilhado significa que havia uma inflação que é a atuação do inconsciente sobre a consciência. Para alguns a humilhação é a morte espiritual. Para outros, quando o colapso não é total, passam o resto de suas vidas sustentando a velha persona que fica cada vez mais evidente e difícil de manter com o passar dos anos.

Para o indivíduo é difícil aceitar a impotência porque ele acredita ser ela moralmente inaceitável e improvável que aconteça, mas Príapo com sua faca de poda não perdoa e o dilema se torna ainda mais sério. No desespero para se sentir potente, o indivíduo pode partir para excessos sexuais que é uma atitude que revela a necessidade de inflar mais uma vez.

Inflando o falo na tentativa de concentrar tudo de phallos na corporalidade, então é possível entender isso como metáfora para a inflação que acompanha qualquer tipo de excesso; de poder, força, bens, dinheiro, etc. Sacrificar conscientemente os próprios excessos terá um efeito deflacionador e a energia que seria despendida para esses excessos é dirigida para a cultura.

Os antigos depositavam parte de suas colheitas aos pés da coluna do deus Príapo para aplacar esse movimento de inflação e deflação. O sacrifício exigido por Príapo torna-se o sacrifício do excesso material e da persona inflada. O sacrifício da persona conduz à humilhação, e esta não regride, a não ser que se encontre o caminho da satisfação metafórica, psicológica, daquilo que se estava tentando satisfazer concretamente.

O CICLO DA TRANSFORMAÇÃO DO MASCULINO


CISÃO

Mircea Elíade: “Tem-se dito com freqüência que uma das características do mundo moderno é o desaparecimento de qualquer rito de passagem significativo”.

O rito de passagem iniciava o menino no mundo dos adultos e o livrava da dependência materna em direção a uma dependência fálica adulta. Com o desparecimento do rito de passagem os homens permaneceram psicologicamente adolescentes – enquanto phallos torna-se inevitavelmente um complexo independente, mantendo-os perpetuamente numa escravidão inevitável a todos os tipos de exercícios de poder.

A masculinidade dissociada de phallos é levada à inflação, especialmente porque não há mais falo para ser verdadeiramente inflado. Aí a inflação tende a recair sobre o que estiver mais acessível o que, após a cisão, é o ego. Muitos desses indivíduos cindidos em sua potência fálica sentem-se como meninos com medo irracional de serem meninas ou considerados como tal.

Então, considera-se a cisão como a dependência materna da qual o indivíduo, mesmo adulto, não consegue se livrar. Dependência materna aqui não precisa ser tão e somente literal. Dependência materna é a atitude que leva o indivíduo a ter a necessidade de estar acolhido sentimentalmente por outra pessoa ou por um grupo a que pertence. Esse grupo pode ser de amigos, pode ser a empresa onde trabalha, por ser o inconsciente etc.

A cisão de phallos também pode corroer os relacionamentos homem-mulher, pois os deixa sem forças para lidar com os aspectos da mãe devoradora de toda mulher com a qual se envolvem.

A dependência da mãe e do coletivo bloqueia a energia criativa (phallos), pois o indivíduo se identifica ou fixa nos aspectos da masculinidade adolescente. Esse bloqueio pode vir da relação sexualizada da mãe pelo filho ou da fixação em um ideal masculino sobre o qual o indivíduo se agarra.

O ego nesse contexto compensa com fantasias e personas infladas no esforço de firmar-se no mundo. É o indivíduo aceitando passivamente para se adaptar ao coletivo que o cerca, sem o que ele não seria aceito, porém, neste caso raramente suas capacidades são aceitas sobre as quais nem mesmo ele tem noção.

Um indício que de há uma dependência da mãe aparece nos sonhos como bruxas que atuam com violência contra o menino sonhador.

INFLAÇÃO

Perturbado com o feminino em que ele pode se tornar, o indivíduo afasta a conexão psicológica com phallos e fica suscetível à inflação do ego. A inflação não é dolorosa, no entanto, os indivíduos desabam quando não conseguem manter um estado inflado anterior, quer seja pelo fracasso de uma relação, pela perda de um emprego, pelo declínio dos atributos físicos da juventude, ou qualquer outra coisa da qual dependam em excesso pelo seu senso de importância ou de identidade masculina no mundo.

Nos sonhos, o masculino inflado aparece com o sonhador voando, flutuando, se vendo sempre acima da terra.

PODA

Mais cedo ou mais tarde as inflações são vazadas e com conseqüências freqüentemente dolorosas ou catastróficas. É o trabalho de Príapo. Com sua faca de poda ele perfura o “balão inflado” na tentativa do complexo fálico atrair a atenção do ego a fim de conseguir a reintegração.

Como o ego resiste, o complexo vai ao ataque, e a inflação tem que ser enfrentada com violência sem nenhuma consideração com o bem-estar do ego. É o período da deflação.

Nos sonhos aparecem com a nudez em público que sugere uma desidentificação com a persona.

BUSCA

A busca começa imediatamente após a poda e é aí que muitos indivíduos buscam a análise. O trabalho da análise é o de direcionar o anseio de inflar novamente para um sentido mais frutífero o que exige o abandono do desejo pelo estado inflado anterior e a lamentação consciente por sua perda.

A busca fálica em alguns homens se dá na forma sexual, para outros envolve a busca idealizada de u mentor. Muitos buscam o substituto do pai ausente ou falho, ou o emprego ideal, riqueza, poder, etc.

Como a busca no exterior não consegue fazer contato com o phallos cindido dentro da psique, há o fracasso. O que vem em seguida é o abandono desse caminho.

ABANDONO DA BUSCA

Príapo poda, deflaciona, humilha e sai de cena. O indivíduo, a essa altura tem duas alternativas: ou se recomeça outro ciclo de inflação igualmente destinado ao fracasso, ou abandona-se a busca de vez, arcando-se com a humilhação como preço da liberdade. Na humilhação há o medo de ser rejeitado pelo ouro e a impotência de evitá-lo.

O sacrifício ao abandonar a busca é um sacrifício porque exige a renúncia da inflação na qual o indivíduo havia investido partes significantes de sua vida e pelas quais esperava gratificação sob a forma de reconhecimento por parte das pessoas próximas. Desistir de tal expectativa significa o confronto assustador com a possibilidade da rejeição por parte de pessoas muito importantes para ele.

INTERVENÇÃO DIVINA

O abandono da busca fálica permite à pessoa viver desinflada e plenamente presente com os embates do dia a dia. O indivíduo vive como realmente é. É um outro deus vindo em socorro do indivíduo.

O phallos assume o lugar apropriado enquanto parte da psique e não do mundo material – que agora se liberta das amarras da projeção, e pode ser visto tal qual é; e o indivíduo ao experimentar phallos concretamente, no mundo, irá ver phallos em tudo o que rodeia.

TRANSFORMAÇÃO

Viver o mundo sem projeções é viver uma autêntica transformação que se estende literalmente para além de si mesmo; é ver o mundo próximo da realidade. É vivenciar phallos enquanto libido – energia psíquica – com a qual lhe é dado inserir-se neste mundo.

Submissão à psique, atenção aos sonhos, uma profissão baseada na vocação interior, sacrifício voluntário e atitude religiosa parece proteger contra o ciclo inflacionário aonde qualquer análise moderna que chegasse a tudo isso, forçosamente teria que ser considerada um sucesso, mas o ciclo de transformações irá sempre acontecer, o importante é o indivíduo ter a sensibilidade e percepção para reconhecê-lo e refletir sobre ele.

“A história de Príapo sugere que a busca é falsa. Pode-se procurar o quanto quiser pelo que foi perdido que ele nunca será encontrado. Encontrar-se-á apenas inflação, ilusões e humilhação. Príapo poda, mas nunca reconecta. Então a duração da busca é a mesma que a da ilusão de que o seu objeto poderá ser encontrado... Mas o verdadeiro objetivo da procura, se é que assim se pode chamá-lo, é a aceitação do fracasso. A humilhação – que não é um fim em si mesma – é antes, um caminho para a transformação.

Podemos nos sentir envergonhados por todos os tipos de segredos sujos; mas eles não podem ser tidos como humilhantes até serem revelados a outrem, como proclamações ao mundo. Inflação, ou seja, encher de ar as nossas atuações, é desconcretizá-las num processo oposto, e que pode ser visto como defesa fundamental contra a inadequação humilhante da realidade concreta.

O propósito da reintegração de phallos é a conjunctio, a criatividade, a paternidade... O propósito do ciclo de Príapo ... é instigar o masculino a mover-se de sua relação com o feminino enquanto mãe para o feminino enquanto consorte. Só assim poderá haver uma conjunctio que fará nascer o futuro viável de uma civilização.” James Wyly

Escrito por Elizabeth Sartori

Baseado no livro: A BUSCA FÁLICA – Príapo e a inflação masculina – James Wyly