sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O MAL SE ALIMENTA DE...



Liguei a TV e fui ver o que tinha na programação daquela noite. Pára aqui, pára alí e então, vi uma cena na qual um Titã dizia que ele se alimentava do medo, o que me chamou a atenção. Não podia deixar de refletir sobre essa fala. Era inevitável.

A palavra Titã vêm do latim Titan, que por sua vez tem origem do grego Τιτάν, Ti-tan. Para James Hastings, esta palavra em etimologia popular vem de títaks, "rei" e titéne, "rainha. Esta hipótese parece mais clara e adequada às funções dos violentos titãs no mito grego, que passou a ter o sentido de "pessoa ou coisa de grande tamanho" . Seriam divindades primitivas, talvez de remota origem oriental, ligadas a ritos agrários. Sua vinculação aos elementos primários da natureza parece confirmada por uma lenda órfica posterior, que atribui aos titãs a origem da parte terrestre, ou material, dos seres humanos.

No meu entender o “indivíduo titã” não só se alimenta do medo do outro, mas de suas culpas, inferioridades, sentimentos de rejeição, vergonhas, covardia e outros sentimentos de origem primitiva.  

Se considerarmos que o Titã é “pessoa ou coisa de grande tamanho”, o “indivíduo titã”, que tem por característica principal o poder, olha o outro como ser inferior, apesar de ele ser mais frágil do que nós pressupomos, pois esconde um ponto frágil em sua personalidade que não pode aparecer.

Você consegue olhar e reconhecer seu lado Titã?
Será que você o camufla com o seu lado deus-herói?

Elizabeth Sartori
Psicanalista

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O QUE É SER MATERIALISTA?

Tive a oportunidade de refletir sobre esse tema e gostaria de compartilhar com você.

Entendo que o materialista é aquele que põe em primeiro lugar o material, os seus interesses não levam em conta o ser humano.

Ao lado de minha casa funciona uma mecânica, tudo bem até aí, mas acordar as 06h da manhã com o indivíduo acelerando um carro e esfumaçando minha casa, não dá. Antes da instalação dessa mecânica eu acordava com o canto dos pássaros, agora é com o ronco de motores e o primeiro ar que respiro é monóxido de carbono. Fazer o quê? Arrumo-me e saio.

Vou para uma empresa e chegando lá a encontro renovando a pintura de suas paredes. Primeiro passo é preciso lixar. Imagine só a quantidade de pó sendo inaladada pelos empregados daquele escritório e por mim que estava lá. Como não bastasse o pó, veio logo em seguida a pintura. Ah! A pintura... uma tinta com um cheiro insuportável, mais barata, é claro. Para que? Para embelezar paredes que haviam sido pintadas há uns meses atrás ou teria uma razão mais “nobre”?

E, então, para fechar com chave de ouro, transitando pela marginal, me vi enfurecida com o descaso que o governo tem com relação à poluição que os caminhões deixam para tráz. A maioria desses caminhões não são de São Paulo e por isso eles podem vir de suas cidades e deixar seu rastro negro. O que esses indivíduos ganham com isso? Economia? Porque a lei serve para uns e não para outros? Como é que é isto?

Sentindo raiva de tudo esse descaso que começou logo cedo, me vi incapaz de fazer algo diretamente à cada um desses indivíduos que os fizesse se conscientizar da sua autodestruição e da destruição alheia. Era como estar só enfrentando o dragão da inconsciência. Como eles podem respeitar o ser humano se eles mesmos não se respeitam?

Esses indivíduos conduzem-nos aos médicos, às farmácias, às desconfiança de suas intenções tão nobres como consertar devidamente um carro, deixar a aparência do escritório mais bonita e carregar o que preciso for pelas estradas de um destino ao outro.

Quando um indivíduo se propõe a enxergar como ser humano a si mesmo, ele certamente verá o outro também como tal.

Sabemos que o ideal para a nossa vida está em se equilibrar e que sempre teremos em nossa vida a luta entre os opostos, tais como: bom-ruim, ganância-generosidade, consciência-inconsciência, materialista-altruista. Não quero dizer com esse desabafo que o material em si é ruim porque senão seríamos eremitas no deserto. O que prejudica e impede a evolução é a unilateralidade desses indivíduos, uma vez que seus propósitos vão de encontro ao que há de ruim neles, poder e ganância de ordem financeira, status, ignorância ou outra qualquer.

Elizabeth Sartori
Psicanalista

domingo, 28 de julho de 2013

EMANCIPAÇÃO - RESULTADO DE UMA LIBERTAÇÃO

Em psicanálise, um dos entendimentos por parte do analisando é a luta contra o que representa a mãe e depois o pai. A partir do momento do nascimento o indivíduo, até mais ou menos 07 anos, passa a receber as orientações da mãe do que pode ou não pode ser, ter e fazer. Em seguida, vem as críticas dele em relação ao que está recebendo dessa mãe e ele vai ao encontro do pai, que por ter seus medos e inseguranças, passa a fazer o mesmo que a mãe. E assim, esse indivíduo que ainda não o é chega ao status de adulto.

Quando adulto, mesmo não convivendo mais com os seus pais, ainda vê a mesmas orientações através de outras pessoas sobre as quais ele projeta a autoridade deles. Como exemplo, temos a interferência no que ele deve ou não cursar na faculdade, trabalhar ou não em uma empresa, comprar algo, namorar ou casar com alguém, educar os filhos e outras.

Normal  !?!  Normal, até certo ponto, já que a criança ainda não tem condições para decisões.  Ela está em formação de sua personalidade. Porém, existem casos de crianças que não tiveram essas orientações, enquanto pequenas, o que resulta daí, adolescentes e adultos que vemos por aí cometendo atrocidades.

A emancipação do adulto está em tomar suas próprias decisões e arcar com as consequências boas e más. Só, então, esse indivíduo poderá experenciar, aprender e apreender sobre sua disponibilidade para a Vida. Viver as experiências de outros e, portanto, protegido não leva o indivíduo ao autoconhecimento, muito pelo contrário, ele vive uma vida sem sentido, cercado de inseguranças e insatisfeito. Ele vive numa prisão sem
saber.

Elizabeth Sartori
Psicanalista

Atendimento na Zona Norte

quinta-feira, 14 de março de 2013

Psicologia Social

Gravei este vídeo sobre Psicologia Social para IPED.TV que oferece vários cursos gratuitos.

Moedas e Cédulas



 As moedas e cédulas, para muitos indivíduos, representam apenas o poder de compra. No entanto, se analisadas atentamente, podem ser importantes fontes de reflexão sobre a realidade. A iconografia nelas impressa não é arbitrária. Atuam sobre a regulação das relações e práticas sociais, definindo o que é aceitável e compreensível. Essa iconografia dos numerários, portanto, não deve ser tratada simplesmente por seu valor monetário, sua raridade ou antiguidade, mas como um instrumento de construção e legitimação de determinadas representações de grupos sociais, instituições, Estados etc.


Moedas e cédulas ainda são um dos mais importantes indicativos do poder dos Estados republicanos. Com o monopólio de sua cunhagem e impressão, esses Estados utilizaram imagens e símbolos que representavam a coesão simbólica e territorial desejada para a nação. 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A MENINA E O PÁSSARO ENCANTADO (Amor e posse)


Sentimento de posse não deve fazer parte do amor, que é a capacidade de suportar a distância, para nutrir a saudade e dar liberdade.

Era uma vez uma menina que tinha como o seu melhor amigo um pássaro encantado. Ele lhe contava histórias de outros mundos. É assim que nos encantamos com a vida e com todos aqueles que nos propiciam tal estado. O encanto é a necessidade da alma e o desencanto é o sofrimento. Um dia, para garantir o encanto, a menina prendeu o pássaro em uma gaiola especial. A partir daí, veio o desencanto e ela aprendeu que amar é a capacidade de suportar a distância, para nutrir a saudade e dar liberdade ao outro de ir e vir.

Quando o cimento da posse e do desejo de controlar tenta unir as partes que se amam, em lugar do bem-estar ficam a tristeza e o sentimento de morte. Precisamos da saudade. Essa, sim, preenche a nossa sensação de incompletude, tão necessária para fortalecer o encanto que existe no amor. A saudade desaparece quando prendemos o outro com nossas inseguranças e medos, de amar e ser amado, deixando-o cinzento e triste. Com o temor de sentirmos a angústia da incompletude, construímos prisões feitas com o nosso egoísmo e as frustrações das nossas expectativas não atendidas. Desejamos eternizar os bons momentos de estarmos juntos esquecidos de que só poderemos percebê-los quando também experimentamos o distanciamento.

Vivemos a liberdade e o amor como uma antinomia. Na mitologia grega, o deus do amor tem asas. Mas também esse mesmo deus carrega flechas que ferem. E se não queremos nenhuma dor, nem a da suade, aí cometemos o erro de usar o amor sem o seu outro lado - a liberdade. Quando a menina comprou a gaiola, ela esperou que ele se acostumasse preso. Mas o tempo passou e tudo ficou triste. Ninguém se acostuma com a prisão. Nossa alma quer habitar um corpo em que ela sinta a sua liberdade de viver, caso contrário ela mata esse corpo para ter a sua liberdade de voar. Quando chegamos a esse ponto de não mais enxergarmos ao colorido da vida, arrependidos, some-se o encanto da vida e precisamos de psicoterapia.

Jung nos ensinou, na prática, quatro fases: Confissão, Esclarecimento, Educação e a Transformação. Para esse entendimento, ele recorreu também ao comportamento dos alquimistas. Esses seguiam um caminho muito parecido com a busca espiritual. Utilizavam as mais diversas substâncias, matéria bruta, para transformá-las em um material refinado e evoluído. Esses materiais poderiam ser, por exemplo, leite de virgem, menstruação de prostituta, urina de criança e assim pó diante. Por analogia, Jung comparou com o processo do homem em análise: chega nesse “estado bruto” e sofre a transformação até se tornar um ser mais elaborado. Os alquimistas utilizaram o latim para nomear as fases por que passava a matéria: Nigredo, Albedo e Rubedo.

Quando chegamos ao consultório, chorando as mágoas do arrependimento ou, simplesmente, com a grande dor da perda do outro, que parecia pertencer às nossas entranhas, fazemos a Confissão. Estamos na Nigredo. A fase que sugere a morte, a sombra e o sofrimento. Aqui não sabemos separar os problemas nossos e os do mundo.

Certa vez o pássaro voltou branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão. Ele cantava as canções e as histórias maravilhosas daquele mundo que a menina nunca vira.  Essa fase é a chamada Albedo, do Esclarecimento e da Educação. Aprendemos sobre as nossas responsabilidades com o que acontece em volta. Há um encantamento e tudo começa a fazer sentido.

De uma outra vez o pássaro voltou vermelho como o fogo. E de novo começavam as histórias. Essa é a fase da Rubedo. É a hora de vier a vida com paixão, fogo e ardor. Aqui acontece a Transformação. Enxergamos mais longe.

Agora sabemos que o ato contra outrem é também contra nós mesmos. Aprendemos a não corromper a ordem – não por medo do pecado ou de ser preso, mas por sentir não ser o correto. É a vida nova, a criança divina. O Natal.

...
Carlos São Paulo
Médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia.

A MAIOR DE TODAS AS CAUSAS (Qual o sentido de sua existência?)


... Qual o sentido de sua existência? Na Grécia Antiga garotos eram educados para que, até seus 15 anos, fossem capazes não apenas de responder a essa pergunta, mas também de apresentar uma sustentação oral que defendesse sua resposta diante de uma banca de notáveis do calibre, por exemplo, de Sócrates, Platão ou Aristóteles. Nada mal para um bando de garotos analfabetos!

Sim, pois de acordo com esse sistema educacional, chamado Paideia, habilidades tais como leitura, escrita e até mesmo a nobre matemática era consideradas secundárias; mera teknè, diriam os antigos. O objetivo da Paideia era moldar o caráter. “As letras virão com o tempo”, dizia Sócrates.

Ser capaz de responder qual o sentido da sua existência nunca foi uma tarefa simples. Nem mesmo na Grécia Antiga1 e é por isso que os gregos se dedicavam tanto à capacitação de seus jovens no sentido de torná-los homens-excelência, ou seja, homens de caráter.

Contudo, o próprio conceito de caráter ia além da simples prática das virtudes. Tinha a ver com a realização das potencialidades individuais ou, para ser mais precisa, com o cumprimento do sentido da existência de cada indivíduo. Esse era o conceito arcaico de sucesso, que em muito difere da visão distorcida que hoje perseguimos. Em outras palavras, podemos dizer que todo o sistema educacional da Grécia Antiga buscava o ser, ao passo que, hoje, nossa Educação valoriza o ter.

É por isso que, atualmente, consideramos o sucesso como sendo o resultado de um processo, o que acaba por justificar nosso comportamento insano de sacrificar toda uma vida em prol, por exemplo, da construção de um patrimônio. Alheios ao fato de que o amanhã não nos pertence, seguimos, rumo a um futuro que, pretensamente, nos fará felizes.

O problema é que, enquanto isso, vamos nos distanciando da nossa essência a tal ponto que a própria Paideia chega a nos parecer ficção: “Como um homem poderiam aos 15 anos, saber qual o sentido da sua existência?, perguntamos a nós mesmos, maravilhados e indignados ao mesmo tempo.

Mas o distanciamento da nossa essência nos cobra um preço alto. Tão alto quanto costumava cobrar na Grécia Antiga, é verdade. A diferença é que os antigos sabiam disso, enquanto que nós no acostumamos com uma insatisfação crônica, uma espécie de infelicidade latente, que faz com que muitos cheguem a duvidar da própria existência de felicidades. Isso sem falar numa infinidade de males físicos e sem causas aparentes que acometem boa parte da clientela dos atuais planos de saúde.

Para os gregos, esses males seriam facilmente associados ao distanciamento do indivíduo em relação à sua essência, o que faria com que os sábios de Epidauro, por exemplo, imediatamente recomendassem o recolhimento e a conexão com seu “eu interior” para qualquer “enfermo” que os procurasse. Isso significa que, para os gregos, havia uma verdade interior que acompanhava o indivíduo e exigia dele sua autorealização. Como vemos, o problema sempre esteve na conexão.

Acredito que hoje, embalados por um ritmo de vida alucinante, agravamos nosso problema de conexão com nosso eu interior. Sócrates dizia que o homem desconhecido de si mesmo é um bárbaro. A partir dessa visão, vivemos hoje na barbárie. Quantas pessoas dedicam um esforço consciente para se conhecerem melhor? Quantos de nós são capazes de responder prontamente acerca do sentido de sua existência?

Perguntas como essas deveriam encabeçar nossa lista de prioridades. Ao invés disso, nossa listam provavelmente, está tomada por itens que envolvem o ter. Quando foi que começamos a nos distanciar de nós mesmos? Daquilo que mais importa?

Para compreender a amplitude do que estou dizendo, faça a si mesmo a seguinte pergunta: Com eu seria hoje se tivesse me dedicado ao autoconhecimento metade do que me dediquei ao trabalho e às minhas conquistas profissionais?

Isso me faz lembrar de uma frase de Nietzsche que dizia que “quem tem por que viver pode suportar quase qualquer como”. Nesse sentido, se engana quem acredita que a pressão da vida moderna nos está adoecendo. A doença da modernidade é a anomia, ou seja, a falta de sentido. Talvez fossemos mais resilientes se soubéssemos qual é a nossa “causa”. Infelizmente, passamos a acreditar que somente os heróis lutam por uma causa. Com isso, nos acostumamos a uma vida sem sentido e nos esquecemos de que podemos ser heróis, ainda que isso nos custe a felicidade e até mesmo a saúde.

...saber o sentido da sua existência é, mais do que um caminho para a felicidade, uma garantia de que sua vida não terá sido em vão.

Lilian Graziano 
Psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento. 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

INSTINTOS, ARQUÉTIPOS E ALQUIMIA


O homem, instintivamente, utiliza imagens para traduzir modelos de comportamento, como o que representa o preto e o branco relacionados aos opostos imaginários.

Em O instinto e o inconsciente (1919), Jung tinha proposto um relacionamento bastante polarizado entre os arquétipos e os instintos, impulsos esses destinados a desempenhar ações originadas de uma necessidade, sem nenhuma motivação consciente. O psicanalista descrevia o arquétipo como “a percepção do instinto de si mesmo ou como o autoretrato do instinto”. A psique humana consiste de consciente/inconsciente e Freud já havia demonstrado a existência de vestígios arcaicos e modos primitivos de funcionamento na história evolucionária do ser humano pensante.

Os instintos sempre revelam um modelo de comportamento característico, que, por sua vez, realiza uma imagem qualquer. E o indivíduo, com seu escopo limitado de comportamento volitivo, funciona instintivamente, representando os modelos de comportamento que lhe aparecem como imagens. Preto e branco.

Essas duas cores são as verdadeiras cores primárias, as primeiras... Para nós, é a primazia do par preto/branco.

Quando o homem idealiza uma mulher vestida de preto imagina algo em seu corpo que ele define como sedutor e, assim, traça o seu percurso em direção à realização disfarçada de seu desejo... A emancipação da mente significa mais que obter pensamentos sedutores ou obscuros, temos que incorporar nossas percepções ignorando os desejos da alma por sombreamentos arquetípicos, que nos deixaram incrédulos, em busca de imagens metafóricas para a realização de nosso desejo.

Podemos começar a perceber, ainda que embaçadamente, por que a cor preta carrega os significados de algo condenatório, construindo um contraste oposicional ao branco, que se caracteriza como a cor da pureza.

Em meados do século XV, em nossa História, os significados do “preto” incluíam sujeira, feitiçaria, trevas, maligno, sinistro. Porém, a cor branca se equaciona à limpeza, purificação e bondade. A Psicologia alquímica oferece, exatamente, essa apreciação imaginativa. Os pacientes (e qualquer um de nós em tantos momentos) que são incapazes de imaginar estão muitas vezes enredados na nigredo por traumas passados, e aprisionados pelo físico no material. Esses mesmos pacientes, contudo, podem estar enredados, também, na nigredo de seus terapeutas. Mas, afinal, o que é a alquimia?

A alquimina é uma palavra arabizada, que trata das forças da natureza e das diversas condições em que operam. Seria o poder mágico da nossa vontade, onde, quaisquer que sejam as condições de nossa vida, o sucesso no caminho escolhido dependerá do eu houver guardado em nossos corações, lembrando que não podemos apenas ser guardadores (guarda a dor...) de emoções e sim reveladores (revelar a dor...) de opções...

Devido às suas origens, a alquimia apresentou um caráter místico, pois absorveu as ciências ocultas da Mesopotâmia, Pérsia, Egito e Síria. A arte hermética da alquimia já nasceu em lenda e mistério. Os alquimistas usavam formulas e recitações mágicas destinadas a invocar deuses e demônios favoráveis às operações químicas. Por isso, muitos eram acusados de pacto com o demônio, presos, excomungados e queimados vivos pela Inquisição da Igreja Católica.

Para Jung, o conceito de “imaginação” é, talvez, a chave mais importante para a compreensão do “opus” alquímico. Trata-se de saber que o inconsciente masculino encontra expressão como uma personalidade interior feminina: a Anima.

E, no inconsciente feminino, esse aspecto é representado como uma personalidade interna masculina: o Animus.

O inconsciente coletivo complementa o inconsciente pessoal e, muitas vezes, se manifesta igualmente na produção de sonhos. Assim, dessa foram, enquanto alguns dos sonhos têm caráter exclusivamente pessoal e podem ser explicados pela própria experiência individual, outros apresentam imagens impessoais e estranhas, que não são associáveis a conteúdos da história do indivíduo. Esses sonhos são então produtos do inconsciente coletivo, que nesse caso atua como um depósito de imagens e símbolos, que Jung denomina de arquétipos.

Assim, formamos nosso conceito das imagens e produzimos em nosso inconsciente imaginativo as nuances das cores que nos trazem prazer e/ou desprazer.

A relação entre instinto e arquétipo pode ser comparada ao espectro das cores, no qual o dinamismo do instinto ocupa o extremo (preto), e o arquétipo, o lado espiritual (branco). Devemos imaginar uma integração na esfera  consciente, que uma cor escolhida pode representar uma situação arquetípica, da qual ainda não temos conhecimento, mas que nos leva a apresentar hipóteses de estudos do comportamento humano, bem como o criminoso escolher estar trajado na cor preta ao praticar determinado tipo de crime, e que outra pessoa prefira se vestir de branco para que o outro veja como um símbolo de pureza e, assim, não causaria repulsa e poderia passar despercebido em qualquer prática ilícita.

A conversão do preto para o branco apresenta um desejo alquímico de mutação, de modo que nossa consciência possa decapitar o fundamentalismo ingênuo de suas ilusões esperançosamente multicoloridas, e que o fascínio da sedução da cor preta possa agregar a simbologia inconsciente do objeto sedutor purificado que o nosso consciente regula e nos impulsiona a utilizar, permeando situar entre o real e o simbólico um elo de prazer e sedução...

Cláudia Maria França Pádua
Psicóloga, Criminóloga, Doutora em Criminologia, Comentarista Criminal, Pesquisadora na área de Inteligência Criminal, palestrante e escritora. 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

MATERIALISMO versus MISTICISMO


“O materialismo racionalista, atitude mental aparentemente insuspeita, é, na realidade, um movimento psicológico de oposição ao misticismo...” Jung
Se o indivíduo tem seu olhar e sua energia voltada para o materialismo (aquisição de bens, posição social, cargos, enaltecimento do corpo e até mesmo o sexo com e tão somente para a satisfação física) em compensação vai em direção ao místico, à magia. Para ele a palavra de, por exemplo,  uma cartomante, astróloga e até mesmo uma simpatia, irá lhe ditar os acontecimentos que farão parte de sua vida. 
Um indivíduo inconformado por não estar conseguindo determinado objeto, poderá procurar um desses mágicos para ouvir dele quais os acontecimentos que cercarão sua vida num futuro breve e ouvirá com credibilidade o que ele tem a falar. Colocará poder em suas palavras e o tratará como um ser que tem contato com o místico, como se essa pessoa fosse a escolhida por Deus para profetizar acerca da vida de outras pessoas.
Diante dessa consulta tão envolvente, por vezes com certa encenação, o consulente sairá de lá esperançoso e/ou motivado ou ainda, assustado com o que ouviu e então, moldará sua vida nas palavras que o tal místico falou-lhe durante a consulta.
“No momento místico, ao contrário, é verdade, sublinha Jung, que emerge aquilo está escondido da consciência (e aquilo que, em graus diversos, se esconde em toda neurose). Mas, com esses conteúdos psíquicos particulares, a consciência não deve chegar a conclusões (redução) e sim confrontar-se (integração).”
Pensando um pouco sobre esse assunto ocorre-me  que se o místico fosse realmente o escolhido teria ele a pobreza dentro de sua casa? Talvez sim, talvez não. Se sim, ele vive tão enfiado no mundo das suas imagens que não consegue a tal conquista anunciada ao consulente e se não, ele é tão materialista quanto o indivíduo que o foi buscar. Acredito que eles fazem seu papel na sociedade ao atender as pessoas necessitadas de um sentido. Dão um placebo (do latim placere, significando "agradarei" é como se denomina um fármaco ou procedimento inerte, e que apresenta efeitos terapêuticos devido aos efeitos fisiológicos da crençado paciente de que está a ser tratado).
Por acreditar piamente no que foi dito na consulta, o indivíduo vai em direção ao objetivo e muitas vezes consegue atingí-lo. Isso pode acontecer não porque lhe foi previsto, mas porque ele reage ao momento em que está vivendo. Como o indivíduo, neste caso, é um ser orientando pelo outro e não por ele mesmo, certamente pagará um preço e poderá buscar novamente o místico para resolver. Fica num círculo vicioso e não entende a vida sem a “ajuda” de um guia.
Não existe nenhuma razão para querer conhecer mais do inconsciente coletivo do que se consegue por meio de sonhos e intuições. Quanto mais se sabe sobre ele, maior e mais pesada a responsabilidade moral, porque os conteúdos do inconsciente se transformam em tarefas e responsabilidades individuais tão logo começam a se tornar conscientes. (Jung, 1991, p. 389) 
Por outro lado, podemos refletir sobre a importância que tem a materialidade para o Ocidente. Nós do mundo ocidental somos constituídos psiquicamente para atingir objetivos externos. O ter tem certa importância para nós e não há como abrir mão totalmente em prol da orientalidade. Imagine-se deixando o Brasil para morar no Himalaia.
Será que esse ter é uma disponibilidade interna de prosperidade ou o atendimento ao que o outro (o místico, os pais, o amigo, o vizinho, o chefe...) quer que seja feito? 
Elizabeth Sartori
Psicanalista – Analista Junguiana
Beth.psicanalista@yahoo.com.br